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Comunidade Antônio Justa reclama por melhorias sociais

|MARACANAÚ| Local já foi reservado para isolamento compulsório de portadores de hanseníase

26/05/2019 02:06:27
?CENTRO de Convivência Antônio Justa, em Maracanaú, funciona onde havia colônia para pessoas com hanseníase
?CENTRO de Convivência Antônio Justa, em Maracanaú, funciona onde havia colônia para pessoas com hanseníase (Foto: RICARLOS MELO/DIVULGAÇÃO)

Audiência pública realizada na tarde de ontem na Assembleia Legislativa do Ceará (AL-CE) debateu a situação do Centro de Convivência Antônio Justa, em Maracanaú (Região Metropolitana de Fortaleza). Hoje unidade acolhedora, de cunho socioassistencial, ainda abriga em suas dependências sete ex-pacientes, remanescentes de uma época em que o tratamento para hanseníase era o isolamento do convívio social.

Mas, os cerca de 160 hectares do terreno do centro comportam mais de 2 mil famílias — em sua maioria, ex-internos e seus familiares. Moram, porém, sem documentos que garantam a posse do imóvel e ainda precisam conviver com problemas de transporte, falta de saneamento básico e serviços públicos.

Os moradores da comunidade tinham três focos na audiência, "entre a infinidade de problemas que a gente poderia trazer", conforme diz Jaqueline Aquino, coordenadora do coletivo Antônio Justa Presente. A partir da preservação da memória, da garantia à saúde dos internos remanescentes e da legalização da terra, as demais demandas podem vir a ser resolvidas, ela afirma.

O resultado do crescimento desordenado, intensificado nos anos 1990, é bem conhecido pela dona de casa Ana Paula Rabelo Salviano, 29. Morando na comunidade desde os três anos, quando o pai, portador de hanseníase, teve o tratamento transferido para lá, ela reclama das consequências de divergências sobre a responsabilidade pelas terras. "A Prefeitura diz que é do Estado, o Estado diz que é da Prefeitura e a comunidade acaba desprezada".

Os moradores reclamam que o Estado passou a se responsabilizar apenas pelo centro, deixando em um limbo jurídico o restante do terreno originalmente parte da colônia. Na audiência, foi proposto o agendamento de reunião com a Secretaria das Cidades para tratar da regularização fundiária.

Outro encaminhamento da audiência pública foi o pedido de tombamento do prédio, demanda referente à preservação da memória. Inaugurado em 1942 e tratado como leprosaria, era parte de uma política de saúde que lidava com a hanseníase apenas para que o contágio fosse evitado. Apesar da política ter sido abolida oficialmente pelo Ministério da Saúde em 1976, até 1986 a Colônia Antônio Justa recebeu internos.

? Também ontem, a Assembleia Legislativa recebeu a exposição Memórias da Pele, do coletivo Aluminoso. As 35 fotos registram a resistência da comunidade e resgatam os impactos que o internamento compulsório trouxe a inúmeras pessoas. Histórias como a de Luiza Alves Noronha, a Lulu, falecida na semana passada, aos 85 anos. Moradora do centro, havia sido mandada para lá aos 16 anos.

Lucas Barbosa

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