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Rituais pós-morte ajudam a superar a dor e a refletir sobre a vida

| Dia de finados | Hoje, 2 de novembro, parentes e amigos prestam homenagens e fazem orações por entes queridos que morreram

22/04/2019 15:34:40
?CEMITÉRIO São João Batista passou por ações de conservação para Dia de Finados
?CEMITÉRIO São João Batista passou por ações de conservação para Dia de Finados (Foto: Julio Caesar/Julio Caesar)

Todo outubro, o movimento nos corredores dos cemitérios aumenta durante a preparação para o dia de homenagens e lembranças. Nas semanas anteriores ao Dia de Finados, lembrado hoje, 2, baldes cheios d'água, esponjas e latas de tinta são usados para cuidar dos espaços que guardam saudades. Hoje, serão flores, velas e preces a passear junto a parentes e amigos. O período marcado pelas lembranças de quem já se foi suscita a reflexão sobre a existência de quem fica. Parte do processo de luto, os rituais são necessários no processo de aprendizado para lidar com a dor e seguir com a vida.

O luto é um processo natural após uma perda, necessário para que o organismo como um todo, física e psicologicamente, se organize após a morte de alguém que se ama. Toda perda desorganiza. E precisa, em um primeiro momento, ser aceita e internalizada. Conforme pesquisa encomendada pelo Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), 48,6% não estão prontos para lidar com a morte de outra pessoa.

Segundo Ana Rachel Sales, psicoterapeuta especialista em luto, a relação que a pessoa tinha com o falecido pode facilitar ou dificultar o processo. "Se foi uma relação satisfatória, onde o sentimento que fica é de satisfação, de dever cumprido, o luto, com todo sofrimento e dor, tende a ser mais tranquilo. Quando foi conflituoso, houve dificuldade de comunicação, questões não ditas, conflitos em aberto, pedidos de perdão e reconciliação não feitos, o luto tende a ser mais complicado. Ainda há algo a resolver e a pessoa morreu".

Ela avalia que a sociedade atual tem cada vez mais medo da morte. A relação das pessoas com o processo do luto e a morte em si era mais coletiva e compartilhada. "As pessoas adoeciam e morriam em casa. Os ritos, como o velório, eram em casa. Hoje em dia, tá tudo institucionalizado. O lugar de tratamento é o hospital, quando isso culmina em morte, ocorre dentro do hospital, de forma solitária, com acesso aos parentes mais próximos, de forma regrada", explica.

Isso resulta, conforme Ana Rachel, em uma vivência mais individual. Apesar de ser um processo subjetivo e não haver um padrão para todas as pessoas, o luto dura, em média, um ano. Período pelo qual os enlutados passam por datas consideradas marcos sem o morto, como aniversário, Dia das Mães, Dia dos Pais, o próprio Dia de Finados e o primeiro aniversário de morte.

Giselle Sucupira Mesquita, psicóloga e enfermeira especialista em tanatologia (estudo científico da morte), destaca que os rituais são extremamente importantes por serem uma forma de homenagear o ente querido que partiu. "Para quem tem um laço afetivo muito forte, isso se constitui uma data para homenagear, mostrar que a pessoa não foi esquecida e mostrar que ela fica presente. Quando tô falando sobre a morte e vivenciando esses rituais, isso vai ter uma reflexão sobre a vida além da saudade. Todos esses rituais, além do sentido religioso, também têm um sentido psicológico e emocional muito forte. Se já há uma aceitação, o momento é de comemorar a passagem daquela pessoa pela vida".

A semana do Dia de Finados este ano teve um marco diferente para a professora Lúcia Santos, 58. A visita ao Cemitério São João Batista foi um desafio, um passo para se sentir mais perto, um ato de coragem de mãe. "Não costumo vir visitar, não gosto. Vim porque hoje (último dia 30) está fazendo um ano que meu filho se foi. É a primeira vez. Nunca tive coragem, mas Deus tá me dando coragem. Estar aqui, de alguma maneira, é estar perto e ele receber minhas orações", se emociona, mostrando o terço envolto nos dedos.

A psicóloga Giselle Sucupira frisa que o assunto faz as pessoas refletirem sobre a própria vida. "Falar sobre morte é falar sobre a vida. Você tem a percepção de que somos finitos, temos um tempo a cumprir e não sabemos quando vai ser. É importante refletir o que realmente tem sentido, o significado da vida para si mesmo para ter uma vida com mais qualidade".

Giselle corrobora a ideia de que, historicamente, a sociedade tem lidado de forma mais complicada com a morte. "A negação da morte, junto com a questão higiênica, foi fazendo com que a gente afastasse esses momentos de perto da gente. A igreja foi se apropriando dos rituais e depois o capitalismo tomou conta, com as casas funerárias. Com a tecnociência, que trouxe a longevidade e a possibilidade de cura, fizeram a gente entrar em uma cultura de negação da morte".

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