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Abrigo para pessoas trans busca financiamento para se manter

| ACOLHIMENTO | Primeiro do Brasil a atender exclusivamente pessoas trans, Abrigo Thadeu Nascimento oferece casa, alimentação e apoio

01:30 | 17/05/2018
MORADORES participaram da oficina Filtro dos Sonhos, na 4ª edição do Diálogos Sesc Sobre Diversidade Sexual e Cidadania AURÉLIO ALVES/ ESPECIAL PARA O POVO
MORADORES participaram da oficina Filtro dos Sonhos, na 4ª edição do Diálogos Sesc Sobre Diversidade Sexual e Cidadania AURÉLIO ALVES/ ESPECIAL PARA O POVO

 

Quando foi expulso de casa, no bairro Monte Castelo, Lucas Lima, 18, se viu sem rumo. Não sabia o que fazer e nem tinha para onde ir. “Fiquei sem chão. Estava perdido no meio da rua”, rememora a história ocorrida há um mês. Dormiu em calçadas, sob marquises, levou chuva, sentiu-se perdido. “Minha família é muito conservadora e não me aceitava”. “Eles diziam que eu tinha de ser mulher”. Em vão. “Fazer o quê se eu não sou?”, sintetiza.

A saída encontrada foi o Abrigo Thadeu Nascimento, o primeiro do Brasil a atender exclusivamente pessoas trans. Criado há dez meses em um sobrado alugado no bairro Joaquim Távora, o local de acolhimento é hoje referencial de família para o estudante. O abrigo foi idealizado pela Associação Transmasculina do Ceará (Atrans). Não tem convênio com órgãos públicos e sobrevive de doações e do bazar permanente. Assim, encara dificuldades financeiras.

“Nosso orçamento inclui aluguel, energia, alimentação e outros suprimentos básicos”, explica o fundador e diretor, Kaio Lemos. A residência tem três quartos, sala, cozinha, garagem e quintal.

Os nove moradores da casa participaram, na semana passada, da oficina Filtro dos Sonhos, realizada pelo Serviço Social do Comércio (Sesc), dentro da programação da 4ª edição do Diálogos Sesc Sobre Diversidade Sexual e Cidadania, que se encerra hoje.

A aula, realizada no abrigo, os ajudou a produzir um apanhador de sonhos. Amuleto da cultura indígena norte-americana, teria o poder de purificar as energias e fazer a separação entre “sonhos negativos” e “sonhos positivos”. E sonhos é o que mais eles têm. “Traz sabedoria e sorte. E é também uma fonte de renda para ser vendida na feira do bazar”, garante a instrutora do treinamento, a artesã Sara Mendes.

Na produção do talismã, entre um amarrado e outro, Kaio Lemos contabiliza as vitórias conquistadas pelos nove residentes: ali, eles têm comida e local para dormir, comprovante de endereço, pessoas com quem compartilhar as dores. “O homem trans passa pela vulnerabilidade, que é a solidão, o abandono, a depressão e até o suicídio. Nem mesmo usar o posto de saúde eu posso se estou na rua, precisa comprovante de residência. Aqui eles têm”.

 

O Abrigo Thadeu Nascimento está em busca de financiamento. O aluguel do mês de maio foi pago com uma doação conseguida com a União Europeia, por meio de edital. O de junho, ainda não está garantido. “Mês passado, a gente pensou até em fechar. Mas não perco a esperança”, conta Apollo Franco, 24, vice-diretor. Vindo de Campos Sales (a 504 km de Fortaleza), Apollo trabalha com a confecção de colete pós-cirúrgicos para homens trans.

 

Kalel Douglas, 20, tem na casa de acolhimento um refúgio há nove meses, desde que os conflitos familiares o impulsionaram a sair da casa dos pais. “A vida de pessoas trans é de muita solidão, por isso é bom estar entre os pares”.

Ele afirma que a transexualidade dificultou seu acesso aos direitos básicos e ao mercado de trabalho. “Fui para várias entrevistas, então foi um processo muito árduo para mim”. Atualmente, ele estuda para o Enem e sonha cursar Nutrição ou Psicologia. E sabe que vai conseguir.

A cada edição, o Diálogos Sesc pela Diversidade Sexual e Cidadania promove ações socioeducativas em diversos pontos da Cidade, e este é o primeiro ano em que o Abrigo Thadeu Nascimento recebe a iniciativa. Kaio Lemos diz que o local procura continuamente desenvolver estratégias de fortalecimento e pertencimento social voltadas para a comunidade trans. “Essa oficina é o passo inicial para as pessoas se sentirem vivas e perceberem que a vida tem muitos saberes, prazeres e trocas. Pode ser uma coisa simples, mas é disso que elas precisam”.

O nome da casa é uma homenagem a Thadeu Nascimento, homem trans que, em maio do ano passado, teve sua residência invadida e foi espancado e assassinado. Um ano depois, a casa que leva seu nome representa um lugar de resistência à transfobia e ao preconceito.

 

SERVIÇO

Para ajudar o Abrigo Thadeu Nascimento

Depósito na conta da Atransce no Banco do Brasil: agência 3253-0, conta corrente 39.855-3.

Outras doações podem ser acordadas pelo

telefone (85) 98553 8070.

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