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Taxa de homicídios de mulheres cresce 330% em janeiro

| EM RELAÇÃO AO MESMO MÊS DE 2017| Balanço preliminar aponta que, até o último dia 29, foram mortas 43 mulheres no Ceará

01:30 | 01/02/2018

O número de mulheres que têm suas vidas interrompidas por assassinatos vem crescendo nos últimos meses. Nos primeiros 29 dias deste ano, 43 mulheres foram mortas no Ceará. Um aumento de 330% com relação a todo o mês de janeiro de 2017, quando foram registrados dez crimes do tipo. O levantamento preliminar foi feito pelo O POVO, com relatório disponível no site da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).
Oito das mortes registradas este ano ocorreram na Chacina das Cajazeiras, a maior da história do Estado. No total, 14 pessoas foram mortas durante o massacre, ocorrido na madrugada de sábado, 27. Excetuando-se as mulheres mortas nesse episódio, o número deste ano ainda é 250% maior que a soma registrada em janeiro do ano passado. Os números que correspondem às ocorrências registradas até o dia 28 foram extraídos do relatório dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) diário, que inclui homicídio doloso, lesão corporal seguida de morte e latrocínio (roubo seguido de morte). Para as informações de crimes cometidos no dia 29, foram utilizado dados do relatório das principais ocorrências atendidas pela SSPDS. Como o total de mortes do mês ainda não foi consolidado pelo órgão, o balanço final será maior. 

Do total de casos, mais da metade ocorreu em Fortaleza, o que corresponde a 23 ocorrências. De acordo com as informações da SSPDS, 37 mulheres foram mortas por arma de fogo.  

A taxa de janeiro deste ano é resultado de um aumento crescente durante o ano de 2017, no qual foram registradas 365 vítimas de CVLIs do sexo feminino no Estado. Em 2016, foram 186 casos. Um aumento de quase 100%. Esse recrudescimento ocorre em dois contextos. Tanto nos casos de feminicídios — crime de ódio baseado no gênero — quanto no acirramento das brigas de facções, que vitimam principalmente moradores de periferias, envolvidos na criminalidade ou não, independente de gênero.  

No caso das mulheres, há ainda uma dupla vulnerabilidade, segundo a socióloga Daniele Alves, pesquisadora do Observatório da Violência Contra a Mulher (Observem). “Há uma dupla violência nesse sentido. São mulheres negras, pobres, que por viverem em comunidade são mais expostas à violência. Há uma maior vulnerabilidade para quem está na linha de pobreza”, explica. 

Ela ressalta ainda a influência da questão histórica nos casos de feminicídio. “É uma questão relacionada ao machismo, o poder em torno da mulher que ainda é muito forte, em especial no Ceará, ligado à construção do ‘cabra macho’ nordestino. Hoje, temos legislações específicas, mas ainda há uma carência de equipamentos que respaldem essas mulheres. Há uma construção histórica de que a mulher deve estar no âmbito doméstico. Quando ela está na rua, no âmbito público, está mais vulnerável”.   

 

NÚMEROS 

43 mulheres foram mortas até o dia 29 de janeiro, de acordo com dados da SSPDS 

10 casos de homicídios de mulheres foram registrados em janeiro do ano passado  

 

ANA RUTE RAMIRES ruteramires@opovo.com.br