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Missas pedem por paz e justiça às vítimas da chacina das Cajazeiras

| 7º DIA | Duas celebrações religiosas, uma na comunidade e outra na Catedral de Fortaleza, reuniram famílias das vítimas e fiéis

03/02/2018 01:30:00
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Contaram-se sete dias, e a comunidade no bairro Cajazeiras, local da maior chacina da história do Ceará, permanece aturdida de dor. Presentes na celebração no Santuário Mãe da Divina Providência, na Paróquia de São Diogo, cerca de 400 pessoas compartilhavam os olhares chorosos de pesar e um pedido em comum: familiares e amigos das 14 vítimas, sobreviventes do massacre e demais fiéis clamavam por paz. Vestida de branco e com velas em punho, a pequena multidão fazia da cerimônia um abraço àqueles cujas vidas titubeiam perante o sofrimento.
[SAIBAMAIS] 

Celebrada pelo vigário episcopal, indicado pela Arquidiocese de Fortaleza, Élio Correia de Freitas, a missa contou com a participação de sete padres e dois pastores evangélicos. O vigário falou sobre a tristeza que abate quem teve os entes levados pela violência, e pediu que as rezas fossem direcionadas aos assassinos. “Muitas questões estão por trás da violência, e a gente não quer julgar ninguém. O que queremos é paz”.
 

Em um santuário imenso, o número reduzido de pessoas denotava: “A comunidade ainda está prisioneira da violência. Nós convocamos a não ter medo, mas as pessoas ainda estão fragilizadas diante de tanta dor”, disse o pároco Waldeci Souza. Em carta lida na cerimônia, a Caritas Arquidiocesana de Fortaleza relembrou a tragédia com indignação. “Um dia em que o sol não quis nascer, talvez ele tenha sido o único a ter coragem de declarar luto oficial depois da madrugada sangrenta”, diz trecho da carta, lida pela representante Isabel Forte.
 

Já na Catedral Metropolitana, sem participação de familiares, outra missa foi celebrada. Segundo o padre Clairton Alexandrino, pároco da Catedral, este é um momento em que se vê os frutos “podres e amargos da violência”. E que se faz necessário seguir a proposta do Evangelho de mudar essa mentalidade para que se responda o mal com o bem e não multiplicar a violência.
 

Nas Cajazeiras, aos pedidos de depoimentos sobre como tem sido o passar dos dias depois de tamanha crueldade, muitos silenciavam. “Não quero falar, não tenho forças, a gente não dorme”, deixa escapar uma moradora. A família do vendedor de cachorro-quente José Antônio Dias de Oliveira, o Marron, morto aos 55 anos, foi uma das poucas a comparecer à missa. 

Ladeada pelos seis filhos agora órfãos, a viúva era ombro e abraço a todo instante. Quando o pranto teimava em molhar o rosto dos rebentos, ela enxugava com serenidade, escondendo as próprias lágrimas.
 

Para uma amiga de Marron, a vida no bairro se reveza entre a dor, o medo e certa indignação. Ela conta que o apoio prometido pelo Governo às famílias não tem chegado. O aumento do policiamento é o único braço do Estado que tem alcançado a comunidade. “Era o Marron que colocava alimento em casa. E apoio mesmo a família só está tendo da comunidade”, conta. 


A situação também é relatada por uma irmã do pedreiro Raimundo da Cunha Dias, morto aos 48 anos. “Nem serviço social, nem comissão de direitos humanos, nem governo. A gente não recebeu apoio de ninguém”, conta, enquanto a sobrinha, caçula de Raimundo, pranteia a morte repentina do pai.
 

 

DOMITILA ANDRADE
domitilaandrade@opovo.com.br


JOÃO MARCELO SENA
joaomarcelosena@opovo.com.br 

 

João Marcelo Sena

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