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O CAMINHO DAS ONÇAS PARDAS

|SUSTENTABILIDADE| A presença de grandes felinos na Serra das Almas poderá impulsionar a criação de novas reservas particulares

16/07/2019 09:35:21
MATA do Centro Ecológico, em Crateús. Habitat de felinos selvagens
MATA do Centro Ecológico, em Crateús. Habitat de felinos selvagens (Foto: DEMITRI TÚLIO)

Um projeto na Reserva Natural Serra das Almas, em Crateús, mapeará os hábitos e as rotas da onça parda e outros felinos no que há de caatinga entre Ceará e Piauí. A iniciativa é da Associação Caatinga, uma organização socioambiental que trabalha a afinação da convivência entre o homem do Semiárido, a fauna e a flora do bioma predominante no território cearense e na maior parte do Nordeste.

O caminho das onças, indica Daniel Fernandes, coordenador da Associação Caatinga, também é uma das estratégias para estimular a criação de novas reservas particulares do patrimônio natural (RPPN) ao redor dos 5.845 hectares de floresta da Serra das Almas. A maior unidade de conservação privada do Ceará e Posto Avançado da Biosfera da Caatinga na Terra. Certificação concedida pela Unesco em reconhecimento à preservação da biodiversidade do mundo.

A existência de onças em matas preservadas de Crateús até o Parque Estadual do Cânion do Rio Poty, no Piauí, poderá render ganhos sustentáveis a donos de fazendas e de propriedades onde o bioma ainda não foi devastado para a criação de gado, extração de madeira sem manejo e para a prática de uma agricultura que ignora a agroecologia.

Daniel Fernandes explica que a presença da onça parda na Serra das Almas "é um indicador de que a cadeia alimentar ali está equilibrada". Porém, a espécie, que ocupa o topo da cadeia alimentar, "precisa de um território maior para se deslocar e se alimentar", esquadrinha.

A área de ocorrência do felino na Serra das Almas acaba sendo um refúgio, como se fosse uma ilha de conservação. É preciso viabilizar corredores ecológicos por causa da destruição de habitats. "Por isso nossa estratégia é ampliar o número de unidades de preservação", explica Fernandes.

Existem 36 RPPNs federais no Ceará. Cinco foram criadas por interesse de proprietários, no entorno da Serra das Almas. Crateús é o município cearense com maior número de unidades de conservação particulares na caatinga.

A existência de grandes felinos em áreas preservadas também favorece a permanência e reprodução de outras espécies. Caso, por exemplo, da avifauna. As aves, afirma Daniel Fernandes, precisam de "trampolins" para se deslocar ou migrar de um território para outro de forma protegida e sem ser exposta a caçadores.

A pesquisa sobre os itinerários da onça parda ou suçuarana é parte do projeto Clima na Caatinga, patrocinado pela Petrobras. Inicialmente, foram postas armadilhas fotográficas para georeferenciar os pontos dos percursos delas dentro da reserva e para onde elas estão saindo. Com essas informações, virá a proposição de criação de novas unidades de conservação e reservas. O biólogo Hugo Fernandes Ferreira, pesquisador da Universidade Estadual do Ceará (Uece), coordenará o estudo.

Embora a Associação já colete dados há alguns anos, agora os biólogos estabelecerão um método mais direcionado para responder perguntas complexas sobre a ecologia dos felinos. A primeira expedição será em novembro.

Hugo Fernandes explica que se buscará responder o mais difícil, que é saber de que forma os felinos utilizam o local. O foco são as onças pardas. Saber qual a dinâmica de uso, onde caçam e, sobretudo, por onde e como se movimentam fora da reserva. Para isso serão instaladas mais armadilhas fotográficas - câmeras que filmam, ativadas por sensores de movimento e calor - dentro da RPPN e imediações.

Demitri Túlio

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