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Jornal

E se fosse meu aluno?

As aulas daquela manhã de quarta-feira, 13, tinham acabado quando a notícia do massacre na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano (Grande São Paulo), começou a surgir pelo rádio, pelo WhatsApp e pela televisão, atravessando o almoço e o descanso antes dos próximos expedientes. Parecia fake news, pensou o professor de História André Rosa, 46 anos, "porque foi muito brutal".

Frente a frente com a realidade absurda, as reações caminharam entre a incredulidade e o medo, até chegar ao lugar dos que mataram, dos que morreram, dos que sobreviveram "e imaginar se poderia acontecer perto da gente", dialoga uma professora de Biologia, de 37 anos, que não quer ser
identificada.

Uma trilha de sentimentos aproxima as dores e as perguntas, em Suzano, de cotidianos em salas de aula de escolas públicas e particulares locais. Nessa trilha, a tristeza se aproxima da reposta para a pergunta que ressoa a partir do massacre em Suzano. E se fosse meu aluno quem matou ou quem morreu? "Acompanhei tudo, meio atordoada... Cada nome que eu via, tenho alunos com nomes parecidos", liga uma professora de História, de 53 anos, que também pediu a preservação
da identidade.

Atuando no Ensino Médio e no Ensino Superior há mais de 25 anos, a professora de História considera que está "no olho do furacão", hoje, quando "essa cultura de ódio", disseminada e respaldada na atual cruzada política "começa a aparecer na prática". Os alunos se mostram mais agressivos nos debates em salas de aula, ela sublinha, enquanto também compõem uma juventude mais introspectiva, "cada vez mais perto da depressão. Isso era uma coisa muito distante, tinha um aluno ou outro".

Nestes tempos, as angústias ganham mais espaço, incluindo, o mundo virtual. Agora, tão perto e sentidas por todos os lados - do aluno ao professor -, causam certa impotência. Nem sempre é permitido ou é possível avançar além da pergunta "está tudo bem?". Empatia e respeito são um norte até uma relação maior, educadora, aprendeu a professora de Biologia que leciona desde os 19 anos e transformou a superioridade do início em escuta e conselho. São brechas pelas quais alunas têm lhe falado sobre assédios sofridos, por exemplo.

Mas alcançar a vida que se fechou em silêncios é como explorar uma caverna, absolutamente escura, ressentem os professores ouvidos nesta reportagem. "Quando me senti sem a competência real para ajudar, orientei o departamento pedagógico e psicológico", busca a professora de História a cada passo ou palavra em sala de aula, cruzando o presente e a formação de alguém. O ser humano é, por natureza, mais perguntas do que respostas e nunca será possível saber "de verdade", encara a professora, "quem é o meu aluno".

É mesmo atravessar uma escuridão ou ainda uma corda bamba. A docência, reafirma André Rosa aos 27 anos de profissão, é para se abraçar. Mas ele, que está ficando "com a idade dos pais" dos alunos, prefere manter cautela nessa aproximação: "Ao mesmo tempo que se aproximam, não existe tanta intimidade". A escola não conseguiu e não conseguirá reverter os desamparos da família, avalia: "A escola é suporte. A família nunca vai ser superada".

Os encontros entre professores e alunos costumam ser fugazes, duram 50 minutos, uma vez por semana, entre conteúdos, à beira do Enem... Fica o olhar lacrimoso de quando se perguntou sobre a vida, no final da aula. Ficam alguma inspiração e conduta. Ficam tentativas de escuta e de dizer, como fez a professora de Biologia, ano passado, quando sofreu misoginia em uma turma de adolescentes: na última avaliação, pediu que eles refletissem sobre fazer o outro sofrer, "para que pudessem repensar
algumas atitudes".

Ana Mary C. Cavalcante