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Em 4 anos, cocaína que sairia pelo mar cresceu 18 vezes

| TRÁFICO PELOS PORTOS | Documento da Polícia Federal revela que mais de 75 toneladas da droga foram apreendidas na última década. Apenas entre 2015 e 2018, cocaína retida nos portos nacionais passou de 1,5 para 27,3 toneladas

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Nunca houve tanta cocaína flagrada nos portos brasileiros, geralmente descoberta em operações policiais batizadas com os nomes mais criativos: Antigoon, Brabo, Contentor, Spectrum, Niva, Blockbuster... Os 20 quilos da droga encontrados por acaso, em meados de outubro último, no Porto do Mucuripe, estão muito longe da montanha de pó movimentada por organizações criminosas, flagrada antes de partir para os continentes africano, europeu, asiático e para a costa norte-americana. Em alguns casos, até já prestes ao desembarque no destino final.

Apenas nos quatro últimos anos, o total apreendido de cocaína, até outubro de 2018 aumentou quase 18 vezes. Foi pouco mais de 1,5 tonelada de droga interceptada até o final de 2015. Em 2018, até outubro, foram somadas mais de 27,3 toneladas. A estatística é impactante. E é ainda mais se a comparação for feita com 2009, que teve apenas 105 quilos descobertos no ano todo entre os portos nacionais.

São dados de um relatório da Polícia Federal que descreve volumes de cocaína retidos em vários ancoradouros do Brasil. Alguns fardos também descobertos já no Exterior. O documento distingue a movimentação em nove dos principais portos brasileiros e o crescimento significativo dentro da última década. Entre 2009 e 2018, foram 75,5 toneladas do pó barradas antes de chegarem às mãos das quadrilhas ou dos clientes.

É uma quantidade jamais vista, admite quem lida com o problema - mas que prefere falar sob anonimato. Confirma a diretriz dos grupos criminosos, de reforçar pelo mar o trânsito de drogas entre os continentes. O aumento de apreensões no Brasil a partir de 2015 coincide com um alerta feito por agentes da Inteligência da Rússia, ainda naquele ano. Chamou atenção dos investigadores russos, à época, a carga de cocaína flagrada no porto de Kaliningrado. Eram 170 quilos. Estavam num navio que zarpou do porto de Santos (SP). Até então, as apreensões somavam quantidades muito menores a cada final de ano.

As informações totalizadas pela PF são reforçadas por um outro relatório sobre apreensões de drogas, também interno, elaborado pela Receita Federal. Este feito a partir de operações conjuntas com a Polícia Federal ou em flagrantes durante vistorias específicas de cargas não tributadas. Os dados da Receita tabulam quatro tipos de drogas - cocaína, maconha, crack e sintéticas. Consideram apenas o total apanhado em portos e aeroportos, não especificando de quais Estados.

O levantamento da Divisão de Vigilância e Repressão ao Contrabando e Descaminho (Corep), da Receita Federal, aponta que a quantidade de cocaína traficada entre 2010 e 2018 já é quase a mesma de maconha. Historicamente, a maconha sempre foi mais "exportada" - o Brasil como rota da droga trazida principalmente do Paraguai. De janeiro a setembro de 2018, a cocaína apreendida (24, 5 toneladas) foi quatro vezes superior ao total da maconha encontrada para embarque (6 toneladas).

As informações da Polícia Federal sobre a cocaína flagrada nos portos são da Coordenadoria Nacional de Combate ao Tráfico de Entorpecentes, chefiada pelo delegado federal Júlio Baida durante a gestão Michel Temer. O píer de Santos aparece como o mais acionado pelas quadrilhas. Na década, foram mais de 48,6 toneladas de cocaína tomadas dos criminosos.

"Não é a eventual vulnerabilidade do Porto de Santos que faz com que ali seja apreendida grande quantidade de drogas. Ao contrário disso, no Porto de Santos se apreende mais droga na saída do que os portos europeus na entrada, comprovando o alto nível de segurança e eficiência das medidas adotadas. Todavia, pelo Porto de Santos saem e entram mais de um navio por hora e, no mínimo, três com destino à Europa. Pelo Porto de Santos são movimentados mais de 2,5 milhões de contêineres por ano. Logo, essa intensa cadeia logística favorece a oferta de rotas para criminosos", argumenta o delegado Baida.

Os destinos são diversos: portos da Espanha, Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda, França, na Albânia, Índia ou pontos incertos do Mar Mediterrâneo. "Existem diferentes modus operandi, mas o mais comum é o denominado de Rip On / Rip Off, que se caracteriza pelo desvio de um contêiner da rota logística, com subsequente contaminação com a droga e reinserção na cadeia logística. Para tanto, a principal ferramenta é a cooptação de pessoas que atuam nessa cadeia, tanto para o recebimento de informações quanto para burlar a fiscalização", descreve o delegado.

Chama atenção o tráfico registrado na última década a partir do porto de Salvador. É o segundo maior volume de cocaína no período, perdendo apenas para a movimentação em Santos. Do Nordeste, somente o de Recife também é apontado no levantamento da PF. O Ceará ainda representa pouco e não é registrado na contagem.

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Na edição de ontem, a reportagem informou que 20 quilos de cocaína, em tabletes, iriam ser despachados do porto do Mucuripe, escondidos dentro do motor de um contêiner refrigerado. A partir do flagrante, O POVO mostra a prioridade das quadrilhas com o tráfico pelo mar e como é a segurança no porto do Pecém. Na última década, 75,5 toneladas foram apreendidas em portos brasileiros

CLÁUDIO RIBEIRO