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Fortaleza Esporte Clube
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Em entrevista exclusiva, Marcelo Paz detalha por que Fortaleza é a favor da Lei do Mandante, MP 984

A Medida Provisória que muda a política dos direitos de transmissão do futebol brasileiro tem menos de um mês para ser apreciada pela Câmara Federal

Lucas Mota
15:26 | 15/09/2020
Marcelo Paz acredita que a união dos clubes é a maneira mais inteligente de crescer
 (Foto: DEÍSA GARCÊZ/Especial para O POVO)
Marcelo Paz acredita que a união dos clubes é a maneira mais inteligente de crescer (Foto: DEÍSA GARCÊZ/Especial para O POVO)

A Câmara Federal tem menos de um mês para colocar em pauta a votação da Medida Provisória 984, publicada em 18 de junho pelo Governo Federal, sob pena dela caducar (deixar de existir). O texto do documento mudou a política de direitos de transmissão de eventos esportivos no Brasil.

Pela MP 984, as entidades de prática esportiva mandantes têm prerrogativa exclusiva de negociar seus jogos nessa condição com qualquer negociador no mercado. Em outras palavras e falando especificamente de futebol, o clube que joga em casa pode vender a transmissão de suas partidas sem qualquer consulta ao visitante, desobrigando a emissora de TV ou qualquer outra plataforma que for exibir o jogo de ter acordo com ambos os envolvidos na partida — basta negociar com o mandante.

Interessados na transformação da MP em lei, 45 clubes criaram o movimento Futebol+Livre e pressionam a Câmara Federal a votar o documento nos próximos dias. Nas redes sociais, a hashtag #PelaLeiDoMandante é utilizada para dar visibilidade ao assunto.

Um dos clubes a favor da aprovação da MP 984 é o Fortaleza. Em entrevista exclusiva ao O POVO, o presidente do Tricolor, Marcelo Paz, justificou o porquê de ser favorável à mudança e explicou que benefícios ela poderia trazer ao futebol brasileiro e, consequentemente, aos torcedores. Confira abaixo:

O POVO: Por que você defende que a MP 984 se torne lei?

Marcelo Paz: Eu sou defensor de que os clubes devem ser mais protagonistas do futebol. As pessoas vão para o estádio, compram camisas, se tornam sócios-torcedores, transmitem isso de pai para filho por causa do clube. Daqui a 20 anos, as pessoas (jogadores, técnicos, dirigentes) serão diferentes. Os clubes têm que ser protagonistas, ter mais poder de decisão. Essa lei dá esse poder. O clube da Série B que sobe para a Série A, no atual modelo, só pode vender os direitos para um grupo específico. Não tem escolha, liberdade, tem que aceitar o pacote oferecido ou ficar com zero. Não pode vender para ninguém. Com a Lei do Mandante, o clube tem o direito dele, com seus 19 jogos. Tem um ativo que vale mais. Os clubes podem mais e defendo porque são eles que fazem a magia do futebol. A gente sabe que a estrutura de mudança é muito lenta, fica por muito tempo do mesmo jeito. Não podemos deixar passar essa oportunidade. Inclusive, desta forma, nos alinhamos ao modelo que funciona em diversas ligas do mundo (Inglaterra, Itália, Alemanha). O Brasil está atrasado.

O POVO: Com a Lei do Mandante vai haver mais equilíbrio financeiro entre os clubes?

Marcelo Paz: Sim. Nos países em que esse modelo vigora há um equilíbrio muito maior de distribuição (do dinheiro arrecadado com venda de direitos de transmissão) do primeiro para o último que recebe. É uma distância bem menor do que acontece no Brasil. Desta forma, (todo clube) passa a ter o mesmo poder na quantidade de jogos. Tenho no mínimo 19 jogos como mandante. E se cada clube se associar com mais clubes, que é a medida mais inteligente, cria uma força maior. Inteligente é todos os clubes se juntarem e venderem (os direitos de transmissão) por um valor maior com divisão financeira mais justa.

O POVO: Os clubes estão unidos em relação a isso?

Marcelo Paz: Eu diria que sim. Entendo que a melhor forma de pensar em si é pensando em todos. Muitas marcas fortes aderiram o movimento Futebol + Livre, clubes com realidades diferentes. Gigantes como Palmeiras e Flamengo e times que estão na Série A com menor investimento como Bahia, Fortaleza e Ceará. Há times de outras divisões. Todos entendem o modelo como o melhor. É um movimento bem mais plural.

O POVO: Qual a projeção de ganho com a nova lei?

Marcelo Paz: A cota anual do Fortaleza, com diversas variáveis, pode chegar a R$ 40 milhões. Acredito em um incremento de pelo menos 50%, chegando a R$ 60 milhões. Não é de imediato. Há contratos vigentes que não serão mudados, mas em uma negociação futura com a lei em vigor (podemos chegar a este valor).

O POVO: Nas redes sociais, os torcedores demonstram certa rejeição sobre o assunto. Como a mudança pode beneficiar a torcida?

Marcelo Paz: Eu acho que a rejeição é mais política. Não é rejeição técnica. A gente vive momento muito polarizado, é até redundante falar isso. Mas a verdade é que tudo que vem de um lado é rejeitado pelo outro e vice-versa. Mas nesse caso não é política, é futebol. Os torcedores serão beneficiados porque o clube que eles torcem vai negociar com mais força, vai se tornar um time mais forte. Não haverá mais “apagões” (jogos sem transmissão). Todo mundo lembra do nosso primeiro jogo (contra o Athletico-PR, no Castelão) que não foi transmitido. E outros jogos também não foram. No ano passado, quase metade dos jogos não passou na TV fechada porque tinham dois players que não conversavam. Quem é penalizado é o torcedor. Esse movimento dá liberdade aos clubes, opções para o torcedor assistir aos jogos do seu time. Sou o mais interessado para que o torcedor veja o jogo. A partida que não foi transmitida, o que mais lamentei foi pela torcida que não assistiu. Não deixamos de receber nada por isso. Meu torcedor foi privado em função do modelo. A Lei do Mandante acaba com os “apagões”, o clube se fortalece e pode ofertar mais ao torcedor.

O POVO: O que você pensa sobre transmissão por streaming próprio do clube e da iniciativa de Ceará e Bahia com o Sócio Digital?

Marcelo Paz: Esse tema a gente tem tratado internamente. O compromisso é de que os jogos passem para o nosso torcedor, seja no streaming ou na TV aberta. Temos que brigar e trabalhar para que os jogos do Fortaleza, em todas as competições, sejam acessíveis. Estamos vendo o melhor modelo. Streaming não é barato e não é garantia de qualidade absoluta. Nosso produto é futebol. Transmissão é diferente. Acho interessante a iniciativa de Bahia e Ceará. Tivemos conversas sobre a possibilidade de nos alinhar ao modelo. Acho interessante, mas estamos discutindo internamente qual o melhor passo a ser dado, garantindo sobretudo ao torcedor acesso aos nossos jogos com transmissão de qualidade.