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NOTÍCIA

Estilo reativo e pouca organização ofensiva: uma análise tática dos gols do Ceará com Argel

Esportes O POVO fez um levantamento de todos os gols marcados pelo Vovô em 2020 para entender o que os tentos dizem sobre as ideias de Argel Fucks como treinador

11:21 | 07/02/2020
Argel Fucks é eficiente ao jogar como um time reativo, mas peca quando deve propor o jogo contra equipes inferiores
Argel Fucks é eficiente ao jogar como um time reativo, mas peca quando deve propor o jogo contra equipes inferiores (Foto: AURELIO ALVES)

O trabalho feito pelo técnico Argel Fucks deve ser o assunto que mais gera polêmica no Ceará neste início de temporada. Alvo de críticas pela torcida por conta do baixo desempenho de um time com investimento milionário, o treinador balança no cargo e tenta aliviar a pressão nas próximas semanas. Mesmo conquistando sua primeira vitória, ao superar o Pacajus por 1 a 0 na última quarta-feira, 5, os protestos do torcedor não cessaram.

Muitos questionamentos são feitos a Argel. A suposição de que o técnico tem um estilo “retranqueiro”, teoricamente incompatível com o elenco montado pelo Alvinegro na última janela de transferências, é uma das críticas mais recorrentes. Para discutir essa pauta, Esportes O POVO faz um levantamento dos gols marcados pelo Ceará nos últimos quatro jogos para entender se o treinador alvinegro realmente merece receber esse tipo de crítica vinda da torcida.

Vale ressaltar, porém, que esta análise leva em conta somente os gols marcados em 2020, já que Argel só teve tempo de implementar ideias e conceitos nesta pré-temporada. Quando assumiu a equipe na Série A, o técnico pegou um Ceará seriamente ameaçado de cair para a Série B. Não havia espaço para tentar dar uma filosofia ou um estilo de jogo específico ao time. Portanto, analisar os tentos marcados só neste ano diz muito mais sobre o trabalho feito pelo treinador.

Fases do jogo

Antes de prosseguir, é preciso explicar alguns conceitos simples, que são as fases de jogo. No futebol, existem cinco fases: bola parada, organização ofensiva, transição ofensiva, organização defensiva e transição defensiva. Para fazer esta análise, tomaremos apenas os três primeiros conceitos.

Bola parada pode ser uma cobrança de pênalti, de escanteio, lateral, ou de falta (direta ou indireta). Mas muitas pessoas se confundem quando se fala em organização ou transição. Quando um time está defendendo e toma a bola, é feita uma transição ofensiva, que é quando os jogadores têm que mudar do comportamento defensivo para começarem a atacar. Passado um tempo, já com a posse de bola consolidada, a equipe começa a pensar o que vai fazer no jogo. Essa fase se chama organização ofensiva.

Existe um período de tempo que separa a transição e a organização. Um time pode tomar a bola e, ao invés de tocar para trás ou para o goleiro, já engatar um contra-ataque. Esses gols rápidos, poucos segundos após a equipe retomar a posse, são chamados de gols em transição ofensiva. Já aqueles em que a bola circula mais, com mais trocas de passes, são os gols em organização ofensiva.

Gols do Ceará com Argel

Os gols marcados pelo Vovô na “Era Argel” revelam bastante sobre qual é a proposta de jogo da equipe, que busca ser mais reativa. Times que preferem esperar o adversário, ficar no seu campo de defesa e sair com velocidade, aproveitando os espaços que aparecem, podem ser bastante eficientes diante de adversários com igual ou maior qualidade técnica. Mas, teoricamente, também encontram dificuldades quando surge o desafio de propor o jogo e ir pra cima do oponente.

A prova disso é que, dos cinco tentos marcados pelo Ceará até esta sexta-feira, 7, apenas um (20%) foi em organização ofensiva, quando o meia Felipe Baxola marcou contra o Freipaulistano após receber passe de calcanhar de Vinícius. Dos outros quatro, dois (40%) foram em transição (o segundo contra Freipaulistano e o gol contra o Ferroviário) e outros dois (40%) em bola parada (contra Fortaleza e Pacajus).

Treinador e analista de desempenho, Diego Ângelo diz que o uso das saídas rápidas e dos lances em bola parada é típico de equipes reativas: “Se eu fico menos tempo com a bola, eu tenho menos possibilidade de fazer o gol, na teoria. Então, tenho que treinar outras situações que me possibilitem isso. Não é regra que um time reativo use bola parada com escape, mas quase todos os times que conheço têm esse recurso muito forte”.

Ter uma bola parada forte ou uma boa transição ofensiva é um trunfo para qualquer equipe, independente de suas características. Porém, o fruto das críticas a Argel Fucks decorre muito da dificuldade que o Ceará tem de jogar contra equipes menores, que se postam mais no campo de defesa. Nesse caso, a organização ofensiva, que pressupõe a troca de passes e circulação do jogo, deveria prevalecer na hora de contabilizar os gols, mas não é isso que acontece.

“Se você ver os melhores momentos do Ceará contra times inferiores, em chances, foram de igual pra igual: Freipaulistano, Pacajus e Ferroviário tiveram chance de gol, de empatar. E o Ceará não criou mais que duas chances, tem muita dificuldade de propor”, opinou Diego. Para o treinador, que também participa do Taticast, podcast sobre tática, o orçamento e a qualidade técnica do Vovô teriam que pesar para tirar a equipe do campo de defesa na hora de enfrentar esses adversários.

Alternativas para o Ceará

Quais seriam, então, alternativas que Argel Fucks poderia procurar para reforçar a organização ofensiva de sua equipe? “Buscar um jogo apoiado em toda a fase de construção. Da saída de bola até os meias ou pontas, é muito distante e ineficiente”, analisa Diego ngelo. Hoje, o Ceará joga no esquema 4-2-3-1, com dois volantes no meio campo, um meia centralizado, dois pontas e um centroavante. A mudança desse sistema, consolidado desde a temporada passada, não pode ser descartada.

“Pode mudar o esquema abrindo mão dos pontas ou até os utilizando. O que precisa é de alguém com qualidade para construir pelo meio. Fabinho, William (Oliveira), Sobral e Charles são volantes de marcação. Assim, da zaga pros meias fica longe. É tentar melhorar a saída de bola pra chegar melhor e mais rapidamente aos meias e pontas, observar no mercado um volante construtor ou usar mais o Ricardinho”, completa Diego.

Um esquema 4-4-2, com Vinícius e Felipe Baxola no meio, portanto, pode ser uma alternativa para Argel, que corre contra o tempo para ajustar o seu time e conseguir se manter no cargo por mais tempo. O próximo desafio será contra o ABC, às 16 horas, na Arena das Dunas, pela Copa do Nordeste.