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Comportamento dos torcedores pode ser explicado pela naturalização da violência contra a mulher

"Os homens se veem autorizados a assediar, violentar e humilhar as mulheres, inclusive chamando isso de brincadeira", diz pesquisadora

14:16 | 20/06/2018
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Sem entender o significado das palavras que pediram para ela repetir, uma estrangeira foi assediada por um grupo de brasileiros durante a Copa do Mundo, na Rússia. Os homens falavam palavras de cunho sexual sobre a cor da genitália da mulher. O vídeo do momento foi postado nas redes sociais como uma “brincadeira”. Entretanto, o conteúdo teve repercussão negativa entre os usuários que denunciaram o machismo e a humilhação que a vítima sofreu. O caso foi discutido internacionalmente e, segundo estudiosas de gênero, mostra como a violência contra a mulher é naturalizada no Brasil.

Para Luanna Marley, pesquisadora do Núcleo de Diversidade Sexual e Gênero da Universidade de Brasília (UnB), o machismo está enraizado no pensamento dos brasileiros, sendo a socialização dos homens comprometida por esta ideia. “O lugar que acontece a maior parte de nossa socialização é na escola, mas o debate sobre a violência contra a mulher e gênero está constantemente sendo silenciado nesse ambiente”. Ela explica que por um lado, movimentos sociais lutam para que o assunto seja discutido desde cedo, por outro, a política conservadora do País vê a discussão como negativa e barra o que chamam de “ideologia de gênero”.
 
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A consequência disso, de acordo com a pesquisadora, é a naturalização das práticas de machismo. “Os homens se veem autorizados a assediar, violentar e humilhar as mulheres, inclusive chamando isso de brincadeira”. Outro aspecto que pode levar a homens agirem dessa forma é o conceito de masculinidade ligado á agressividade. Segundo Leonísia Fernandes, mestra em Gênero e Direitos Humanos Universidade Federal da Paraíba, existe quase uma “obrigatoriedade” entre os homens de mostrar poder sexual. 

“Essa masculinidade é adquirida, e uma das formas para conquistá-la é a tomada do corpo feminino, demonstrando a suposta passividade da mulher e o homem como ativo”, diz a também advogada popular. Leonísia afirma que o ambiente de torcida que proporcionou esse tipo de comportamento é reproduzido em diversas situações, com protagonistas de todas as classes sociais. “Nesse contexto, vemos a violência por meio de palavras e gestos e por homens que estão no topo da pirâmide social - brancos, héteros e de classe alta - , mas no canteiro de uma obra na periferia também é sentida, mesmo que talvez esboçada de formas diferentes”. Ela atenta ainda para o cunho racista das palavras que os homens falaram, distinguindo a vítima pela cor “rosa” da pele da genitália. 

[SAIBAMAIS]Romper com o comportamento machista não deve ser atribuição somente das mulheres, afirma Leonísia. A pesquisadora explica que os homens precisam entender o que é o machismo e como eles devem ajudar a desconstruir essas ideias. Ela vê como positiva as críticas feitas ao vídeo, que mostra o quanto as ideias feministas já chegaram em muitas pessoas. “Mulheres estão tomando a luta para si, mas me preocupo com o progresso ficando só no campo do discurso”. A advogada diz que ainda há dificuldade de chegar na periferia, em mulheres negras e lésbicas que não têm o privilégio de estar em ambientes que pesquisam ou discutem o machismo.

Ainda sobre a repercussão, um dos comentários comuns em relação ao vídeo foi o questionamento de que se a mulher fosse irmã ou mãe de algum deles, os homens não teriam a mesma conduta. Para Luanna, a tentativa de “sensibilização” dos agressores lembrando de um possível parentesco com mulheres vítimas de assédio só é necessária devido à normalização da violência contra elas. Não conseguir perceber a agressão em atos contra mulheres, segundo Leonísia, demonstra a “desumanização” que o gênero feminino sofre. “Se não vejo como meu igual, não reconheço a violência”, explica. 
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