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Caso Neymar: uma novela volta a parar o País

20:27 | 04/06/2019
Neymar é acusado de estupro por mulher.
Neymar é acusado de estupro por mulher.

Há muito o Brasil não acompanha com tanto entusiasmo uma novela. De fato, não recordo qual a última vez que uma trama despertou tanta paixão, provocou tantas discussões, atiçou ânimos e opôs torcidas pró e contra este ou aquele personagem. E se equivoca o leitor que imagina que me refiro ao sucesso de A Dona do Pedaço (TV Globo), cujo desempenho no Ibope supera o de outros 10 títulos que ocuparam a faixa nobre.

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A intriga de que trato aqui é a do suposto estupro cometido pelo jogador Neymar, do PSG e da Seleção Brasileira de futebol. Desde que a denúncia veio a público, no último sábado, este se tornou assunto obrigatório de qualquer antessala de consultório médico e dos corredores de ônibus urbanos, gerou polêmicas em salões de beleza, virou deixa para o taxista puxar papo com o passageiro, incendiou as redes sociais e gerou uma infinidade de memes, compartilhados à exaustão.

A chamada “novela da vida real” tem tantos elementos folhetinescos que seu enredo nada deixa a dever ao trabalho de grandes mestres da teledramaturgia nacional. A começar por onde teria acontecido o crime, a luxuosa suíte de um hotel, na capital francesa. Talvez os leitores mais jovens desconheçam, mas no tempo das vacas gordas, nove entre dez novelas do horário nobre tinham sequências iniciais passadas e gravadas em países estrangeiros.

Este não é o único ponto de conexão entre o decorrer dos relatos dos dois envolvidos na denúncia do crime e a estrutura dramatúrgica clássica. Na verdade, eles são muitos. Além do locus, chama a atenção logo de início um recurso comum na dramaturgia, a Inversão de Expectativa. O que teria tudo para ser o cenário de um encontro idílico, ansiosamente esperado, repentinamente se transforma no palco de um show de horrores.

Como na definição clássica de ‘novela’ a trama vem se desenrolando em capítulos, num crescendo frenético, e com direito a reviravoltas de tirar o fôlego. Depois que a bomba da denúncia estourou, um vídeo gravado pelo acusado da agressão, e publicado para uma audiência de 119 milhões de espectadores em potencial, inverte os papeis. Ou pelo menos tenta.

Até então vilão, Neymar arvora para si o papel de vítima de tentativa de extorsão. A suposta mocinha, cuja identidade é mantida em sigilo, torna-se uma pérfida sedutora, que teve seus planos de alpinismo social desmascarados. Além do vídeo, Neymar divulga, à guisa de provas de que a relação sexual havia sido consentida, trechos de conversas picantes e nudes trocados entre os dois por WhatsApp.

Como numa jogada de mestre (urdida pelo autor invisível da trama), o teor destas conversas, onde fica claro que a moça viajou e se hospedou bancada pelo jogador, assim como consentiu uma relação sexual anterior, fermenta os debates e excita as torcidas de ambos os lados, tornando o tema ainda mais relevante no imaginário popular.

Há quem veja na divulgação das imagens e conversas mais um crime cometido pelo jogador, desta vez cibernético. Especialistas em direito digital são ouvidos pela imprensa e não apresentam certezas, deixam brechas onde ora seria possível criminalizar o ato, ora não.

Também há os que constatem nos relatos evidências suficientes de que as intenções da moça não eram as mais honestas. Outros se indignam com a possibilidade da suspeita estar caindo sobre a verdadeira vítima. Na montanha-russa em que a trama se tornou, o ex-advogado da denunciante abandona o caso, acusando-a de mudar a versão do crime, aumentando para estupro o que seria inicialmente agressão.

Quando se espera uma pausa dramática, mínima que seja, dá-se uma nova reviravolta. O pai do filho da denunciante (sim, ela é mãe de uma criança de cinco anos de idade), procura a TV para anunciar que o menino está sendo vítima de chacotas, por ter sido citado pela mãe em uma das conversas vazadas.

Pairando sobre todos estes acontecimentos, torcida e seleção passam pela tensão habitual que antecede a disputa por uma copa, no caso a América, que começa na próxima semana.

É ou não é o enredo de uma grande novela, em sua acepção clássica (narrativa breve e episódica, que se caracteriza por apresentar uma espécie de concentração temática em torno de um número restrito de personagens)?

Talvez pela natural paixão que tenhamos por telenovelas, talvez por estes pontos sincrônicos entre a ‘vida real’ e o folhetim, o caso do suposto estupro está sendo consumido midiaticamente como se fora ficção.

Comenta-se, mais que isso, julga-se a vida dela e dele, em ambientes públicos reais e redes sociais, como se estivéssemos num espaço onde o herói e vilão fossem figuras obrigatórias, onde o mundo se divide entre os “do bem” e os “do mal”, entre os que são honestos e os que são “escrotos”. Nenhum meio-termo é possível.

Como numa trama ficcional, fruto da mente de um criador, as certezas abundam – tanto para os detratores quanto para os defensores de um e outra. E todos parecem esperar pela sequência final, onde finalmente a verdade será mostrada (e os que pensam diferente de mim terão de se calar). Não bastassem as cisões políticas, comportamentais e ideológicas, o País encontra mais um território para dar vazão a polarização que agora nos define’.

Émerson Maranhão