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Quando grita a alegria

01:30 | 04/10/2019
(Foto: Alex Gomes - Especial para O POVO/Alex Gomes - Especial para O POVO)

O movimento das ondas do mar conquistou Dadinho. O cenário que muda a cada instante, a instabilidade do balanço das águas e a adrenalina de ser carregado por elas encanta o garoto, ressoando no ritmo próprio do menino de 12 anos.

"O surfe é integrativo, o coloca em contato com a natureza, com praia, com a comunidade. Ele vai à Praia do Futuro e não tem barreiras, conhece todo mundo. Lá eu não sou o Luiz Fernando, sou o pai do Dadinho", relata o pai de Leonardo Vale, que tem síndrome de down e é autista.

A prática esportiva está na vida de Leonardo, o Dadinho, desde muito cedo. Aos seis, ele chegou à escolinha de surge que frequenta até hoje e foi recebido por Luiz Gustavo, o Gustavinho, ex-atleta de bodyboard, que já tocava um projeto social voltado a pessoas com limitações físicas.

"Dadinho apareceu aqui bebê e hoje é um rapaz. O Luiz falou que ele já vinha de outros atendimentos, do hipismo, da psicóloga e a resposta mais forte veio através do surfe", conta Gustavinho. Ele lembra que levou tempo para ganhar a confiança do garoto, convencê-lo a entrar no mar e subir na prancha.

"Ele não ficava quietinho e não se comunicava com as outras pessoas. Antes era só comigo, mas hoje mantém uma relação interpessoal com todo mundo. Tem que ter conquista e ele te dá feedback com gestos, olhares e abraços", diz o professor.

Dadinho não fala, pelo menos no sentido mais comum do termo. A interlocução vem por meio de um aplicativo. Mas quando na praia, um hang loose (gesto de mão fechada, com apenas o polegar e o mindinho estendidos, típico do surfe) é suficiente para cumprimentar a todos e mostrar a satisfação que sente ao estar ali.

"A interação social dele com as pessoas é incrível, ele não se sente diferente e os outros não o tratam de forma diferente. É um dos poucos locais sem preconceito, em que as pessoas não olham com pena", diz Luiz Fernando, o pai.

Basta acompanhar Dadinho em um sábado na praia para perceber isso. Na escolinha, ele escolhe a prancha e, de mãos dadas com o professor, cruza toda a faixa de areia — enquanto alguns o param para cumprimentar — e entra no mar sem medo. Deitado na prancha, espera a primeira onda para carregá-lo e em meio à emoção do movimento, solta um grito típico dos surfistas.

Ele ainda não fica em pé, mas isso é mero detalhe. Junto ao pai, que voltou a pegar onda por causa do filho, ou do professor, vai mar adentro em busca de ultrapassar os próprios limites. Imitando a água, não se acomoda.

Totalmente integrado à comunidade do surfe, Dadinho fica livre na praia. Corre, brinca, como qualquer outra criança. Entende aquele espaço por completo. "O entorno o acolheu bem", relata, feliz, o pai.

 

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