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BBB20: que debates sociais podemos levar da edição histórica do reality?

Diversas discussões sociais, como o machismo e racismo, foram exemplificadas na 20º edição do programa; tendência é que produção de conteúdos com tais temáticas aumentem e ampliem visões dos temas

12:37 | 29/04/2020
As mulheres do BBB 20 em conversa com o Hadson, grande articulador da trama de traição (Foto: REPRODUÇÃO TV GLOBO)
As mulheres do BBB 20 em conversa com o Hadson, grande articulador da trama de traição (Foto: REPRODUÇÃO TV GLOBO)

A edição deste ano do Big Brother Brasil atendeu às demandas de entretenimento e foi além: trouxe discussões pertinentes sobre políticas públicas e questões sociais que refletem a situação social do Brasil. Mesmo que com o intuito de entreter e “alienar”, foi impossível desviar-se discussões sobre racismo, sororidade, cultura do cancelamento e machismo que, por muitas vezes, eram exemplificadas nas redes sociais com situações breves do programa e que podem continuar a perpetuar por aí mesmo após a final do BBB20.

Mas ao que se deve a persistência das atitudes na casa e as discussões políticas aqui fora? Para a doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Eliana Coelho, as discussões políticas presentes no reality já estavam sendo debatidas há algum tempo nas redes sociais, famosas por reproduzirem conteúdos rápidos sobre o programa além da edição diária organizada pela emissora. A exemplo da própria edição do reality em 2019, que já discutia as atitudes problemáticas de Paula Von Sperling, e que também repercutiu em 2020.

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O isolamento social devido à pandemia de Covid-19 paralisou a produção na televisão aberta e os interessados em futebol, por exemplo, tiveram que “migrar” para acompanhar a edição do BBB20, o único entretenimento inédito durante o período. A junção de fatores e dos temas proporcionou o “experimento social” da casa, no qual poderíamos observar a quase todo instante as ações e reações dos participantes. “Essa edição sintetizou nossas diferenças entre si e que também temos produção de conhecimento público acontecendo”, explica.

A “cultura do cancelamento” também foi um reflexo dos telespectadores das redes sociais que tentavam boicotar um participante quando o mesmo fazia alguma atitude tida como controvérsia. Um dos exemplos mais próximos do BBB20 foi a da médica Marcela McGowan, tida como uma das favoritas para o prêmio, mas que logo foi eliminada e bastante criticada por comportamentos no reality. Para Eliana, o “cancelamento” não reflete a situação real da discussão, por muitas vezes superficial. “Funciona como uma retórica de guerra onde o intuito não é dialogar com a pessoa, e sim destruí-la. Ao mesmo tempo, uma pessoa tida como “cancelada” hoje, amanhã pode não mais estar”.

Apesar de não serem ideais, situações na casa exemplificaram debates sociais de forma simples

As situações de machismo na casa logo iniciadas no jogo não tinham o mesmo peso entre homens e mulheres. O suposto deslize que seria cometido contra elas seria pior do que a articulação dos homens - e eles sabiam disso. Mas logo outro rumo foi tomado e a situação criou uma sensação de união entre as mulheres, que confrontaram o plano com Hadson. Ele negou a todo instante a participação.

Mas a união entre elas também se mostrou rasa quando envolvidas com questões como o racismo e classe social. O grupo conhecido como “comunidade hippie” juntava os participantes entre suas particulares com temas sociais, mas situações que envolviam Thelma logo refletiam a falta de conexão. A médica negra por diversas vezes foi confrontada pelo grupo por apoiar Babu, que também sofreu ataques racistas pela casa. Ele não fazia parte do grupão e, apesar das controvérsias, jogou ao lado de Thelma durante todo o programa.

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Thelma recebeu o castigo do monstro com outra mulher negra, Flayslane, e não recebeu apoio das supostas amigas da casa, que faziam comentários que apenas os telespectadores sabiam. A expectativa de que Thelma soubesse das atitudes e, assim, confrontasse o grupo foi grande. Quando Thelma foi líder, novamente foi descreditada na casa pela participante Mari Gonzalez, que se arrependeu “por ter deixado ela ganhar” a liderança.

Segundo Raquel Caminha, historiadora pela Universidade Federal do Ceará e pesquisadora do Grupo de Pesquisas e Estudos em História e Gênero (GPegh), o feminismo exemplificado no reality, apesar de inovador, tinha suas particularidades. “Esse conceito pode parecer uma união irrestrita entre as mulheres. Mas até que ponto a sororidade existia com Thelma, a única mulher negra e finalista da casa?”. Para Raquel, Marcela, participante do grupão e com atitudes controvérsias contra a médica, tinha condições econômicas e sociais bastantes diferentes de Thelma e isso somava-se ao fato da discussão de tais privilégios na sociedade ainda ser de difícil discussão no País.

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Debates sociais entraram em pauta na televisão aberta e não pretendem sair tão cedo

Mas, afinal, qual a importância de inserir esses debates na televisão aberta? Raquel explica que a edição pode ser o início de mudanças posteriores nos conteúdos do reality e de outros programas de entretenimento devido à importância da televisão no cotidiano brasileiro. Parte da população que tem acesso a esses programas televisivos não consomem outros tipos de serviços, como os streamings, e o reality tornou-se a única forma de entretenimento inédito na rede aberta, chegando a entrar no Guiness Book com recorde de votações em um paredão entre Manu Gavassi e Felipe Prior. O oposto entre machismo e feminismo protagonizou o maior paredão de todos os tempos do programa, com 1,5 bilhão de votos e Prior ficou fora da disputa pelo prêmio. “Nós que estamos fazendo um trabalho de reflexão sobre a sociedade não podemos nos reprimir de fazer esse trabalho com a TV aberta. Os realitys shows são necessários para entendermos como a sociedade está funcionando”.

Após a final da edição, que consagrou Thelma como a vencedora, a médica novamente foi assunto na internet devido a uma situação de confrontamento com Lucas, um dos homens da casa. Em uma discussão que chamou o participante de "macho escroto", o termo se tornou um dos mais pesquisados do Google, com cerca de um milhão de buscas na plataforma.

Mesmo que a situação não pareça a ideal para debater o tema, o pontapé inicial já foi dado para perpetuar as discussões sociais da edição e não se pretende acabar após o fim do programa. “O debate vai continuar porque o reality mostrou que esse debate já estava acontecendo há muito tempo. As pessoas vão continuar a produzir conteúdos sobre o racismo na sociedade brasileira e o machismo. O BBB20 foi uma coalizão desses temas”, amplia Eliana.

Raquel complementa e explica que as discussões na televisão aberta possibilitaram que o debate dos temas sociais chegasse em outras pessoas. “Discutir isso na grande mídia de massa, especialmente na situação de isolamento social, é necessário. Porque é o que chega na maioria da população”, conclui.