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Coronavírus
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O Ceará está sob uma segunda onda do coronavírus? Especialistas explicam

Na epidemiologia, a segunda onda de uma doença infecciosa já é normalmente prevista por especialistas.

15:23 | 29/10/2020
Ocorrência de mortes pela doença permanece em constante queda e com tendência de desaceleração (Foto: Júlio Caesar)
Ocorrência de mortes pela doença permanece em constante queda e com tendência de desaceleração (Foto: Júlio Caesar)

O aumento de casos do novo coronavírus em países como Alemanha, Espanha, Itália e França destacam uma possível segunda onda dos índices da pandemia. Medidas como o lockdown, já desmentidas no Ceará, foram protocolos que atuaram na primeira onda no Estado e ajudaram a controlar os números, infecções e mortes. Mas meses após a medida, há a possibilidade de uma segunda onda cearense de Covid-19?

Na epidemiologia, a segunda onda de uma doença infecciosa já é normalmente prevista por especialistas. Isso porque na primeira onda, tudo é novo: o vírus, a forma de lidar com os pacientes, os protocolos sanitários, o acesso aos testes - tudo isso trazia medo e um certo desconhecimento. Mas na segunda situação, já estamos mais cientes de tudo que está acontecendo e de como devermos nos proteger da doença.

Esse cenário permanece por meses e é chamado informalmente como "período da lua de mel", no qual há uma redução dos índices da doença após uma crise extrema. O momento do Ceará é de queda nos números da Covid-19, mas o aumento de 30% em internações no hospital Unimed Fortaleza também estão dentro da realidade.

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Na rede pública, um dos hospitais referências no atendimento de agentes infecciosos é o Hospital São José (HSJ). A estrutura segue com um hospital de campanha com 25 leitos de enfermaria, sem casos contabilizados, e com a Unidade F ativa, dedicada exclusivamente ao novo coronavírus. Dos 20 leitos semi intensivos disponíveis, 16 deles estavam ocupados na unidade até a manhã desta quinta-feira, 29.

A plataforma IntegraSus, vinculada à Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa), aponta a menor ocupação dos leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) devido à Covid-19 nos últimos 20 dias. Esta quinta-feira, 29, começa com 57,79% das vagas preenchidas. A menor taxa antes dessa foi registrada em 9 de outubro: 57,01%. No dia 8, a plataforma indicou o menor índice para o mês até agora: 56,7%.

É possível falar em segunda onda?

Para a enfermeira epidemiológica e professora do curso de Medicina da Unichristus, Daniele Queiroz, ainda não é possível afirmar a segunda onda da pandemia no Ceará. Apesar da possibilidade do vírus circular com mais força após o primeiro momento, temos acesso a mais testes e novidades no sistema de saúde. "Houve incremento de casos suspeitos reportados, mas ainda não podemos confirmar as alterações. O que podemos enxergar é que, diferentemente da primeira onda, ela não acomanaha a mesma característica para os óbitos".

Ao mesmo tempo em que há um crescimento de casos, os óbitos pela doença são menores. Ainda nesta manhã, o Ceará registrou 448 casos da Covid-19, mas não registrou óbitos nas últimas 24 horas. 

Mas por que então o aumento dos casos? Fatores como feriados prolongados, reabertura de setores econômicos, eleições e não cumprimento de protocolos preventivos diretamente influenciam nos números. Se na primeira onda os cearenses tinham medo e total desconhecimento da doença e suas recomendações, agora o cenário é um tanto quanto diferente.

A experiência vivida durante a primeira onda é favorável para os tratamentos de uma possível segunda onda, conforme explica Lúcia Duarte, enfermeira infectologista e coordenadora do GT para enfrentamento à pandemia do novo coronavírus pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). "O número de óbitos agora pode ser menor porque os profissionais já sabem como lidar com a situação, embora não tenham o tratamento mais eficaz", visualiza.

A enfermeira alerta para um possível aumento dos números de casos após semanas do fim do período eleitoral. "Todo o Brasil está passando por um cenário político e tem um mesmo ponto: estão negligenciando o uso de máscaras", alerta. "A impressão é de piora devido aos eventos, porque conhecemos o nosso tipo de política: são eventos em que as pessoas sempre querem algo em troca e começam a se aglomerar, negligenciando a higiene".

À exemplo, há um mês o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) emitiu aviso para diretórios políticos cearenses para respeitarem as medidas contra a Covid-19. Já nesta semana, a recomendação foi de cassação de registros de candidaturas que promovam aglomerações.

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Mesmo sob eleições, os cenários de cada Estado são particulares para Daniele. "O Brasil tem diversas realidades: alguns estados ainda estão descendo da primeira onda, outros ainda estão se encaminhando para a 'lua de mel'", diz. 

Meses após o período de lockdown no Estado, muitas famílias têm promovido reencontros, esses que devem seguir as recomendações. Para Keny Colares, infectologista do HSJ, os riscos dessas reuniões são as mesmas do que um aglomerado de pessoas. É diferentemente de fazer reuniões familiares em ambientes ventilados e em ambientes fechados. 

Em espaços compartilhados, como academias e restaurantes, é preciso manter a cautela. Não realizar atividades físicas sem a máscara e tirar a proteção apenas durante a alimentação é um dos pontos necessários para manter os índices nivelados. Afinal, a situação ainda requer atenção no Estado. "Não é momento de baixar guarda, de abandonar as medidas de prevenção individual, principalmente lavar as mãos, usar álcool em gel", pontua Daniele. Ainda é importante que pessoas com sintomas e que pessoas que tiveram contatos com casos suspeitos fiquem em casa. "O foco deve ser olhar para cada surto, ver onde os vírus estão passando e tentar interromper o seu caminhar."