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Sobrevivente da Covid-19: servidor público relembra medo da morte e celebra vida pós-doença

O radialista e servidor público aposentado fez o que pôde para fugir da doença, mas não só a contraiu como precisou passar cerca de 15 dias lutando contra a morte
07:36 | Set. 15, 2020
Autor Gabriela Almeida
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Gabriela Almeida Repórter O POVO
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Tipo Notícia

Com 62 anos e dois stentes cardíacos (aparelho inserido no coração após o órgão apresentar obstrução), o cearense José Jones Barbosa é do grupo de risco para a Covid-19. O radialista e servidor público aposentado fez o que pôde para fugir da doença, mas não só a contraiu como precisou passar cerca de 15 dias lutando em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pela chance de continuar vivendo.

Ironicamente, Barbosa contraiu a doença após ter levado o pai, José Conrado, 86, para um sítio da família, onde os dois pretendiam respeitar as orientações sanitárias e permanecer em isolamento. Depois de alguns dias no local, ele e o mais velho passaram a apresentar sintomas da doença - como febre, e logo foram diagnosticados como positivos para a patologia.

No dia 13 de maio, os dois deram entrada em um hospital particular para buscar tratamento. Católico fervoroso, Barbosa recorda que ficou cinco dias sendo tratado em um leito de enfermaria e precisou transformar toda a angústia que carregava em seu coração já debilitado em fé, para alimentar a certeza de que sairia vivo.

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No sexto dia de internação, o seu quadro apresentou uma piora significativa e o servidor já não conseguia mais respirar nem com a ajuda de máscaras de oxigênio. Pouco antes de ser entubado e encaminhado à UTI, Barbosa ouviu seu filho perguntando aos médicos se ele sobreviveria e, pela primeira vez, sentiu medo de morrer.

Daí em diante, a sua memória fraqueja, se transforma em lembranças distorcidas. Com tubos na boca e o corpo recebendo fortes medicações, o radialista permaneceu no limite entre a vida e a morte, sendo capaz de delirar vendo coisas fantasiosas - como monstros, enquanto também ouvia vozes rezando por sua vida.

Nesse período, Barbosa afirma que não conseguia sentir nada, pois estava “entregue nas mãos dos profissionais” e era incapaz de formular um raciocínio lógico. Ele recorda, ainda que vagamente, dos médicos conversando com ele - pedindo para que mudasse de posição ou lutasse para se recuperar.

O momento dramático - compartilhado entre vítima e profissionais, durou até o fim de maio, quando conseguiu uma melhora e saiu do estado grave, recobrando a consciência e voltando em seguida para a casa. De cadeira de rodas e ainda sem conseguir entender o que viveu, Barbosa recebeu a notícia de que seu pai não havia resistido à doença.

“Nós éramos amigos ao ponto de sair, tomar cerveja. Meu pai era um homem saudável e a Covid pegou ele muito rápido”, emociona-se. Sem poder estar presente quando - aquele que descreve como um amigo, faleceu - Barbosa não passou pelo processo de luto e ainda hoje não consegue assimilar a partida do mais velho.

Quase quatro meses depois, o servidor ainda é acompanhado por um psicólogo mas já encerrou as sessões de fisioterapia para recobrar o movimento das pernas, que ficaram debilitadas devido ao tempo em que passou acamado. Os pulmões ainda não estão totalmente recuperados, o coração também precisa de mais um tempo.

Quando olha para trás, o católico acredita que foi alvo de um milagre, sente que ganhou uma nova chance e pensa no futuro como uma oportunidade de “valorizar mais as pessoas que ama”. Barbosa confessa que, todas as noites, antes de dormir, pergunta a Deus qual é o propósito para a sua nova vida e, mesmo ainda sem resposta-, sabe que está pronto para cumpri-lo.

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