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Coronavírus
NOTÍCIA

Brasil é o único a ultrapassar 200 mortes de grávidas e puérperas por Covid-19

Ao todo, são cerca de 1.860 casos da doença notificados nesse grupo de mulheres no País até o último dia 14 de julho

13:41 | 30/07/2020
 Entre as hipóteses que explicam o aumento de óbitos, estão má qualidade do pré-natal e recursos insuficientes para o manejo de situações de emergência (Foto: Rodrigo Carvalho/4/11/15)
Entre as hipóteses que explicam o aumento de óbitos, estão má qualidade do pré-natal e recursos insuficientes para o manejo de situações de emergência (Foto: Rodrigo Carvalho/4/11/15)

No Brasil, pelo menos 201 mulheres morreram nos últimos meses durante a gestação ou no pós-parto após diagnóstico de Covid-19. O País foi o único que chegou esse indicador, segundo o jornal Folha de S. Paulo. Ao todo, são cerca de 1.860 casos da doença notificados nesse grupo de mulheres até o último dia 14 de julho.

Os números são do Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (Sivep-Gripe) e estão sendo trabalhados por um grupo de obstetras e de Enfermagem de 12 universidades e instituições públicas, entre elas Fiocruz, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista (Unesp), que acompanha a mortalidade materna durante a pandemia.

No último dia 9, o grupo publicou estudo na revista médica International Journal of Gynecology and Obstetrics, com análise de 124 óbitos de gestantes e puérperas brasileiras por Covid-19. O dado está dentro de um total de 160 mortes maternas associadas à Covid-19 registradas no mundo até o início de julho.

À época, o número representava 77% das mortes maternas registradas no mundo devido à doença. Os Estados Unidos, que hoje lideram os óbitos gerais pela infecção, tinham registrado 35 mortes de gestantes e puérperas até o último dia 21.

Segundo o estudo, 22,6% das mulheres que morreram no Brasil não tiveram acesso a um leito de UTI, 36% não chegaram a ser intubadas.

“Há uma falha gigantesca na assistência. Com a pandemia de Covid-19, a rede de saúde está mais desarticulada”, diz à Folha a obstetra Melania Amorim, uma das pesquisadoras.

Fatores considerados

Para o grupo que fez o estudo, a má qualidade do pré-natal, recursos insuficientes para o manejo de situações de emergência e dificuldade no acesso aos serviços de saúde durante a pandemia são algumas das hipóteses que explicam o aumento de óbitos.

Segundo a médica Fátima Marinho, consultora sênior da Vital Strategies e professora de saúde pública da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o número de mortes pode ser ainda maior.

Além das lacunas nos dados dos óbitos de mulheres em idade fértil, há ao menos 97 mortes computadas como Síndrome Respiratória Aguda Grave. Segundo Marinho, grande parte destas pode vir a se confirmar como Covid-19.

A especialista diz que esses números precisam servir de alerta para que os gestores de saúde melhorem urgentemente a atenção das gestantes. O assunto foi discutido em um evento virtual do Conselho dos Secretários Estaduais de Saúde (Conass).

Segundo Maria Auxiliadora Gomes, pesquisadora da Fiocruz, os desafios de acesso e qualidade do pré-natal foram agravados pelas medidas de isolamento. “Nem todos os locais estavam preparados para fazer o acompanhamento das gestantes de forma remota”.

Além disso, ela diz que em algumas localidades, planos de contingência levaram à desativação de leitos de maternidade, o que foi contornado mais tarde, segundo o Conass.

Recorte racial

O grupo de pesquisadoras acaba de publicar outra análise em que faz um recorte racial desses óbitos. Em 69 casos pesquisados, o risco de morte das mulheres negras foi quase duas vezes maior do que o das brancas (17% contra 8,9%).

Para Melania Amorim, obstetra envolvida na pesquisa, o retrato reflete não só as falhas de acesso e de assistência do sistema de saúde mas também problemas socioeconômicos e estigmas que afetam esse grupo.

Próximos passos do estudo

O grupo faz agora um trabalho mais minucioso para levantar dados sobre o local do óbito, o perfil do hospital que atendeu as mulheres, a distância e se elas tiveram acesso ao serviço.

Melania pondera que as falhas assistenciais explicam muito mais as mortes maternas do que as eventuais doenças prévias das pacientes.

“Essas mulheres poderiam ser hipertensas, diabéticas, asmáticas, obesas e teriam muitos anos de vida não fosse o fato de terem contraído Covid-19 e terem encontrado um sistema desestruturado, em que houve retardo do diagnóstico e das medidas terapêuticas.”

Um trabalho do Centro de Controle de Doenças americano (CDC) mostrou que a gravidez aumenta o risco de complicação por Covid-19, com mais internação e necessidade de ventilação mecânica, mas não houve maior risco de morte. “Se há protocolos de atendimento adequados, é possível evitar que elas
morram”, reforça Melania.

Saúde materna

A morte materna é um indicador da qualidade de saúde oferecida num País. Por ano, o Brasil registra cerca de 60 mortes de mulheres grávidas ou no pós-parto por 100 mil nascimentos de bebês vivos, uma taxa considerada alta. Portugal e Argentina têm 8 e 39 mortes por 100 mil, respectivamente.

O número de mortes durante a pandemia ainda é parcial, mas os pesquisadores já estimam um salto sem precedentes na taxa de mortalidade materna brasileira de 2020. Em 2009, a gripe suína foi responsável por 57 mortes maternas.