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Coronavírus
NOTÍCIA

Médicos cearenses criticam decisão que derruba obrigatoriedade de planos cobrirem teste sorológico da Covid-19

Para o Coletivo Rebento, as operadoras de saúde devem cumprir função social de complementar o SUS. Eles destacam a importância de todos, com ou sem plano de saúde, terem acesso ao teste RT-PCR, mais eficaz que o de sorologia

Ismia Kariny
14:22 | 15/07/2020
TESTE na clínica do Sesi de Maracanaú  (Foto: Barbara Moira)
TESTE na clínica do Sesi de Maracanaú (Foto: Barbara Moira)

Médicos cearenses criticam decisão judicial que retirou obrigatoriedade de planos de saúde cobrirem pagamento dos exames de coronavírus por sorologia. A decisão foi tomada na terça-feira, 14, atendendo a pedido da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Para os profissionais da saúde, a ANS deveria atuar em favor dos pacientes, não das empresas. “Defendemos que os planos de saúde respeitem os segurados e cubram o custo de todos os exames para detecção do coronavírus. A vida deve estar acima dos lucros”, frisam.

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A Agência informou que entrou com recurso contra a liminar que obriga o pagamento dos testes, porque há risco para os beneficiários quando se incorporam novas tecnologias sem uma devida análise criteriosa. A ANS destaca ainda que, independentemente das decisões judiciais, já faz avaliações técnicas sobre a incorporação de testes sorológicos para o novo coronavírus no rol de procedimentos.

O médico cirurgião digestivo, Ramon Rawache classificou a decisão como retrógrada, sobretudo em uma situação de pandemia, onde a testagem em massa e rastreio dos contactantes são essenciais para uma gestão eficiente da crise na saúde. “Você tem que testar, descobrir que uma pessoa está infectada, rastrear quem esteve em contato com ela, para poder isolar essas pessoas, para que, com isso, possa achatar a curva”, elenca o médico, que é membro do Coletivo Rebento.

Apesar de algumas regiões terem apresentado desaceleração na curva epidemiológica, o médico recorda que ainda há uma ascensão no número de casos. “Na última semana vimos recordes de média diária de mortes, e é muito retrógrado ver os convênios brigando para não prestar assistência aos seus pacientes. A gente [do Coletivo Rebento] não avalia a saúde como uma relação de consumo. Ela é um direito, e nesse período de pandemia, uma questão social”, comenta.

Para Ramon, os convênios de saúde têm se importado mais com uma questão financeira, quando deveriam cooperar para o achatamento da curva epidemiológica. “É um jogo de xadrez, sobre quem vai sair menos prejudicado. A gente não precisa ter mais mortes e pessoas punidas sobre a peleja desse vírus, a gente precisa de gestão geral disso. O convênio tem a função social de complementar o SUS”, salienta. Segundo o cirurgião digestivo, as auditorias podem regular os serviços de testagem para que não haja excessos.

Elodie Hyppolito, hepatologista que atua na linha de frente do Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ), comenta que é inviável uma pessoa ser assistida sem acesso a cobertura diagnóstica da doença. “Se a Saúde Suplementar se acha no direito de cuidar da saúde de pessoas, ela tem que cuidar de uma forma completa e adequada”, pontua. “A Covid-19 é uma doença nova, e o governo enquanto autoridade pública federal precisa agir e cobrar os planos e hospitais privados que assumam a parcela que se dispuseram a assistir”.

Assim como Ramon, a hepatologista lembra que a função dos planos de saúde e hospitais privados é complementar o sistema de saúde público. “Temos quase 75 mil mortos, refletindo a importância epidemiológica desta doença; e o SUS não pode arcar com essa parcela que oscila de 10% a 30% da população dependente do sistema privado”, ressalta Elodie, que é também médica do serviço de transplante de fígado do Hospital Universitário Walter Cantídio. O Coletivo Rebento reforça que é uma atribuição do Poder Público Federal desonerar o SUS, que já é bastante solicitado pela Covid-19.

Testes sorológicos devem ser utilizados com responsabilidade

Embora os testes sorológicos tenham um papel importante para a testagem em massa e o rastreio de contactantes, a hepatologista Elodie Hyppolito enfatiza que eles têm baixa acurácia, e precisam ser utilizados de forma responsável. “São testes iniciais com chances de ter falsos positivos ou falsos negativos em pacientes. O ideal é que o exame seja feito após 14 dias da infecção”, detalha.

De acordo com a médica, esse diagnóstico equivocado pode promover uma falsa percepção de imunidade em pacientes, contribuindo para o relaxamento das medidas sanitárias e de isolamento social. “O que eles [planos de saúde] poderiam fazer, é limitar, por exemplo, o acesso a esse teste aos indivíduos sintomáticos e suspeitos da doença. A própria Organização Mundial da Saúde não recomenda a realização desses testes em pessoas assintomáticas”, salienta Elodie.

O Coletivo Rebento defende o acesso obrigatório ao RT-PCR, que é a forma mais confiável e específica de detectar a Covid-19, por meio do exame da pesquisa do vírus por biologia molecular, segundo esclarece a hepatologista.

Esforço maior deve ser pela testagem em massa e disponibilização de testes RT-PCR

De acordo com o infectologista Roberto da Justa, uma falha grave na resposta brasileira à pandemia é a baixa cobertura de testes entre a população. “Eu penso que a disputa jurídica pelo acesso aos testes sorológicos, entre os usuários do plano de saúde e as operadoras, é válido. Mas o esforço maior deve ser no sentido de garantir a oferta e acesso ao RT-PCR para toda a população”, detalha.

Para o médico, a discussão em torno dos testes deve se pautar na garantia de exames mais apurados na detecção do vírus, com disponibilidade a para pacientes internados e não internados com a Covid-19, e para aqueles assintomáticos. Conforme o infectologista, o RT-PCR é o teste “padrão ouro” para o diagnóstico da doença. Ele esclarece que o resultado positivo neste exame significa o diagnóstico de um paciente com vírus que tem capacidade de transmissão.

“Uma vez identificado esse paciente com PCR positivo, todos os contactantes desse paciente devem ser testados também por PCR e colocados em quarentena para serem observados com relação a evolução da doença”, destaca. O infectologista lembra que países que adotaram a testagem em massa e o rastreio de infectados tiveram experiência de êxito no controle da crise epidêmica.

“As estratégias de testagem em massa, identificação de contactantes e a quarentena, foram as mais eficazes em termo de controle da pandemia; e isso [testagem em massa] não tem sido feito no Brasil em nenhum momento. É um dos países que menos têm testado sua população com RT-PCR”, afirma Roberto da Justa. Portanto, segundo o infectologista, os esforços devem se concentrar em prol do acesso aos exames de pesquisa do vírus por RT-PCR, para que haja uma resposta mais eficiente à pandemia.

Com informações da Agência Brasil