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Entenda por que os sonhos podem ser diferentes durante o período de isolamento social

De acordo com especialista, os sonhos podem ser um reflexo de desejos e medos que manifestamos durante o dia. Períodos traumáticos podem estimular a ocorrência de sonhos diferentes do habitual
11:45 | Mai. 20, 2020
Autor Leonardo Maia
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Leonardo Maia Estagiário
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Tipo Notícia

Durante o período de pandemia, várias coisas têm mudado na rotina de quem está cumprindo as medidas de isolamento social. Em geral, nota-se que as pessoas estão cozinhando mais, consumindo mais produtos artísticos, como filmes e livros, e tentando entender a melhor forma de trabalhar ou estudar em casa.

O ato de sonhar, no entanto, pode ficar de lado diante de todas essas mudanças. Períodos traumáticos, como a atual pandemia ou as guerras mundiais durante o século XX, costumam fazer com que as pessoas tenham sonhos mais recorrentes e diferentes do habitual. Sonhar com pessoas que já morreram, com amigos que estão afastados e com situações decorrentes de medo e ansiedade causadas pela crise podem se tornar mais comuns.

A cineasta Lílian Lopes relata que desde o início da quarentena tem sonhado em sair de casa e ir para lugares que estão fechados. Ela afirma que durante os sonhos sente uma sensação de culpa por estar saindo de casa, ainda mais quando vê as pessoas que estão ao seu redor. “No princípio, acordava com a sensação de ter tido um pesadelo e levava alguns minutos até eu me acalmar e voltar a dormir. Com o tempo, fui me acostumando e eles estão se tornando cada vez mais normais pra mim”, esclarece.

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Já a estudante universitária Ana Victória Anselmo conta que os sonhos funcionam como uma espécie de fuga da realidade. Ela conta que a maioria dos sonhos que tem é relacionada aos filmes que está maratonando durante o isolamento. “Acordo com sentimento de ‘ah não, quero voltar a sonhar com isso’. Desde que o isolamento começou eu tenho lembrado mais dos meus sonhos, geralmente estou viajando ou saindo de casa”, recorda.

O período em que estamos dormindo pode ser um espaço para que nossa mente interprete os desejos e medos que sentimos durante o dia, conforme explica Manoel Sobreira, neurologista e coordenador do Ambulatório do Sono da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O especialista disse que, durante o sono, há uma fase chamada REM (Rapid Eye Movement, em inglês) em que assimilamos as memórias que foram construídas ao longo do dia. “O conteúdo dos sonhos é um sintoma de uma situação. Com esse processo da pandemia é natural que estejam acontecendo muitos medos e ansiedade: da questão financeira, do desemprego, da morte… Nem tudo tem uma explicação lógica, mas é a maneira de o cérebro se reorganizar”, aponta.

Em live para o portal The Intercept, o neurocientista Sidarta Ribeiro, vice-diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ressaltou a qualidade do sonho como um mecanismo ancestral da humanidade. Ele explicou que o ato de sonhar é uma ferramenta para adaptação entre os seres humanos. “É uma forma de tentar despertar no dia seguinte com uma solução melhor. Quando as coisas na vida da gente são interessantes, os sonhos ficam mais realistas, menos metafóricos”, enfatizou.

Sobreira alerta, no entanto, que a reincidência de sonhos ruins pode ser um sinal para o surgimento de algum problema psicológico, que tem se intensificado durante a pandemia. O diagnóstico, no entanto, não pode ser feito apenas pela ocorrência dos sonhos, mas envolve uma série de outros fatores e exige acompanhamento médico.

“Indivíduos estão tendo com maior frequência quadros depressivos e psiquiátricos. Às vezes um dos sintomas que a pessoa apresenta são os sonhos, mas a gente o considera como a ponta do iceberg, o problema pode ser muito maior”, esclarece o pesquisador, alertando que as pessoas devem ficar atentas para a reincidência: “É natural você ficar preocupado com um problema específico e naquele período ter sensação de sonhos”, complementa.

Leia Mais | A falta que uma boa noite de sono faz; entenda os prejuízos da falta de sono para a saúde

Durante a quarentena, Sobreira enfatiza ainda mais a importância de uma boa noite de sono, tanto para a saúde física e mental, como para a redução de sensações ruins ao sonhar. Entre as dicas, o especialista destaca a criação de uma rotina estabelecida para os horários de dormir e acordar. Além disso, é recomendado evitar tomar bebidas com cafeína durante o período noturno e praticar atividades físicas regulares preferencialmente pela manhã.

Pesquisa

Um projeto de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) está coletando sonhos da pandemia Covid-19 de forma online. A iniciativa se assemelha a outros períodos, quando especialistas ouviram as memórias de Auschwitz, durante a Segunda Guerra Mundial, e relatos da ditadura militar brasileira.

Paulo Endo, psicanalista da USP que está a frente da iniciativa, disse que o projeto é uma forma de ter um acervo dos sonhos desse período. “Entendemos esse material como uma doação que as pessoas fazem. A plataforma vai ficar aberta por um período maior para conseguirmos coletar o maior número possível de sonhos”, afirmou Endo em entrevista ao Jornal da USP.

Em 2018, um grupo de pesquisadores da universidade paulista coordenado por Endo, realizou uma iniciativa similar, com a coleta de sonhos durante as eleições. Aqueles que desejarem participar da pesquisa, podem enviar seu relato através deste link.

Leia alguns relatos de sonhos ouvidos pela reportagem durante esta semana*

“Meu cachorro nunca cruzou. No meu sonho eu pegava uma lista telefônica e ligava para todos os canis da cidade atrás de uma cadela que pudesse cruzar com ele. Porém, não havia nenhuma da mesma raça dele nos canis. No sonho eu entrava em desespero e saía à procura de cadelas na rua para cruzar com meu cachorro, mas começava a chorar pois não achava nenhuma.”

"Um dos sonhos mais estranhos que tive nesse período de quarentena foi um em que eu desrespeitava o isolamento social. No sonho, eu estava andando na rua da minha casa e então a polícia começava a me perseguir porque não era para eu ter saído. Lembro que fiquei nervosa tentando me justificar e comecei a correr para dentro de casa. Depois, acordei aliviada."

“Eu decido que vou viajar, comunico a todos de casa, pego uma vassoura e vou com destino ao Japão. No caminho penso em todas as coisas que quero fazer, mas quando estou chegando acordo.”

Sonhei que ia ao cinema em um shopping. Encontrava várias pessoas da faculdade e assistíamos o filme em uma sala lotada. Quando a sessão terminava, resolvia que iria embora, mas era convencida por alguém a ficar e comer algo. Perto da mesa em que sentamos, havia uma mulher recém-saída do hospital, com fios e adesivos pelo corpo. Ela comia normalmente. No fim, comecei a chorar por me sentir culpada por desrespeitar a quarentena”

“Lembro que eu ia pegar um ônibus e o Terminal do Papicu estava lotadíssimo. Comecei a entrar em desespero porque ninguém usava máscaras, e nem eu mesma! Então eu perguntava o que as pessoas estavam fazendo, e todo mundo dizia super feliz que ia se inscrever pro Enem. E eu respondia: ‘Mas, gente! O Enem tem que ser adiado! A gente está numa pandemia!’. Também lembro do céu estar rosa e eu ver claramente um meteoro passando, quase que na velocidade de um avião.”

“Eu estava na praia e recebia avisos de que o mar estava muito revolto. Ficava apavorada com a ideia de me afogar mesmo sabendo nadar e não conseguia sair dali. Em certo momento, o mar, mesmo revolto, me alcançou e de alguma forma ele me ajudava a sair e eu percebia que não precisava de todo aquele medo que estava sentindo.”

*Alguns dos relatos foram modificados textualmente para uma melhor compreensão, mas não houve alteração das ideias.

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