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Coronavírus
NOTÍCIA

95% dos municípios cearenses não tinham leitos de UTI em 2019, aponta IBGE

Segundo especialista, a construção de leitos e a compra de equipamentos durante a pandemia deve garantir uma melhor distribuição espacial após a crise

Leonardo Maia
13:59 | 08/05/2020
 Leito de UTI em Hospital de Campanha no estadio Presidente Vargas (Foto: Aurelio Alves/O POVO)
Leito de UTI em Hospital de Campanha no estadio Presidente Vargas (Foto: Aurelio Alves/O POVO)

Atualizada e corrigida* às 19h25min

O total de 5,4% dos municípios cearenses têm leitos de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), de acordo com levantamento feito no ano de 2019 e divulgado nesta quinta-feira, 7, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em relação a respiradores, essenciais para o tratamento de pacientes mais graves da Covid-19, 45% municípios do Estado possuem o equipamento.

Com a deficiência de UTIs em determinadas regiões, o Ceará é apenas o 19º estado brasileiro com maior número de leitos por número de habitantes: a cada 100 mil pessoas há 9,5 leitos de UTI. Desses, pouco mais da metade (53%) são de hospitais públicos do Sistema Único de Saúde (SUS).

A esperança da pesquisadora Carmem Leitão, coordenadora do Observatório de Políticas Públicas em Saúde da Universidade Federal do Ceará, é que, após a pandemia, os novos leitos e equipamentos adquiridos para a crise sejam redistribuídos no território cearense, atendendo à demanda e garantindo um melhor atendimento aos municípios mais distantes da Capital.

A especialista considera que o progresso para regionalização da saúde no Ceará já era bom quando comparado a outros estados, mas a Covid-19 pode auxiliar nessa evolução. “Já havia iniciativas antes da pandemia para ampliar essas UTIs, mas há vazios que devem estar sendo identificados nesse momento, pela realidade nua e crua. Você vai ter um legado de equipamentos, triplicar ou quadruplicar a quantidade de leitos”, pontua.

Em condição de normalidade, o planejamento deve ser um o principal pilar para a construção de novos leitos de UTI, conforme defende Felipe Braga, professor do Departamento de Direito Público da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele explica que os custos para a implantação e manutenção de equipamentos necessários ultrapassam o orçamento de pequenos municípios e devem ser centralizados em pólos de referência.

O pesquisador explicou que uma cidade com maior capacidade deve regionalizar a atenção especializada e atender municípios da região. Para isso, é necessário, além do orçamento, contar com boa disposição política para realizar a pactuação e uma malha viária adequada ligando os municípios. “Não adianta só jogar (os leitos) em um município e não ter médico para atuar, não ter remédio para custear. O ideal é que haja esse planejamento para que os municípios sejam bem atendidos. Não é questão de achismo”, defendeu.

Diante da pandemia do novo coronavírus, no entanto, a administração pública tem trabalhado na ampliação de leitos de UTI e para compra de novos respiradores. De acordo com nota enviada pela Secretária de Saúde do Estado do Ceará (Sesa), pelo menos 220 novos leitos de UTI foram construídos no interior do Estado, desde a data do levantamento feito pelo IBGE. Durante a pandemia, a secretaria comprou 700 respiradores da MEHECO, empresa estatal chinesa.

A Sesa ainda recebeu 75 respiradores do Ministério da Saúde e tem uma iniciativa em parceria com outros órgãos para reparar os equipamentos que estejam sem uso, cadastrando-os e distribuindo-os nas unidades de saúde necessitadas para tratamento da Covid-19. 68 respiradores foram cadastrados, desses, 50 foram entregues e 18 estão no reparo.

Três municípios cearenses não têm médicos

No Estado, segundo o levantamento do IBGE, três municípios não contam com a presença de médicos: Miraíma, Pacujá e Senador Sá (os três são localizados na microrregião de Sobral). A federação ocupa a sétima pior posição nacional em relação ao número de médicos por 100 mil habitantes: 125. Entre as dez piores taxas, todos os estados pertencem às regiões Norte ou Nordeste.

Apesar da posição do ranking, o Ceará cumpre a recomendação do número de profissionais aconselhado pelo IBGE. “O recomendável são 80 médicos generalistas por 100 mil habitantes. Entretanto, esse parâmetro é válido para uma situação de normalidade. Neste momento de pandemia, essa recomendação deve ser relativizada, pois a demanda pelo sistema de saúde é maior”, ponderou o coordenador de Geografia e Meio Ambiente do IBGE, Cláudio Stenner.

Para Carmem Leitão, é preciso melhorar a fixação de médicos em regiões remotas ou desassistidas do Estado. Ela explica que garantir um salário superior em relação a regiões mais adensadas não é suficiente para ter uma boa distribuição de profissionais.

“Não se pode olhar só para o número absoluto, mas prestar atenção na distribuição. É um grande desafio para qualquer governo levar profissionais para essas áreas com os atuais valores e a cultura que nós temos. Os profissionais podem considerar, por exemplo, se a cidade possui boas escolas se tiverem filhos”, considerou.

O POVO procurou o Conselho das Secretárias Municipais de Saúde do Ceará (Cosems-CE), mas não foi respondido até a publicação desta matéria.

Leia a nota completa enviada pela Sesa

O Ceará possui uma estrutura de saúde bem distribuída pelo interior do Estado, com Hospitais Regionais em Juazeiro do Norte, Sobral e Quixeramobim, além de hospitais-polo em cidades estratégicas como Maracanaú, Caucaia, Itapipoca, Crateús, Tauá, Iguatu e Icó, e que atendem os municípios de suas regiões.

Todas estas unidades receberam incremento de leitos de enfermaria e de Unidades de Terapia Intensiva, específicos para o enfrentamento à Covid-19.

Atualmente são mais de 500 leitos de UTI e 1.553 leitos de enfermaria para atender pacientes com Covid-19. Destes, são 142 leitos de UTI adulto e 980 leitos de enfermaria nas regiões Norte, Cariri, Sertão Central e Vale do Jaguaribe. Os três hospitais regionais contrataram, desde março até agora, 233 profissionais de saúde.

A Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) comprou 700 ventiladores da MEHECO, empresa estatal chinesa. Até a próxima semana chegarão 200 ventiladores no Estado. Os outros 500 respiradores estão previstos para chegar em maio e em junho, sendo 300 até final de maio e 200 em junho. Em geral são necessários quatro dias para os despachos de alfandega na China. A Sesa recebeu durante a pandemia 75 ventiladores do Ministério da Saúde.

No Ceará, uma iniciativa da Secretaria da Saúde do Estado, através da Escola de Saúde Pública Paulo Marcelo Martins Rodrigues (ESP/CE), em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) e outros órgãos voluntários, repara ventiladores que estejam sem uso, cadastrando-os e distribuindo-os nas unidades de saúde necessitadas para tratamento da Covid-19. 68 ventiladores cadastrados, 50 foram entregues e 18 estão no reparo.

Leia a nota completa enviada pelo COSEMS/CE

O Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do Ceará (COSEMS/CE) vem por meio deste, se manifestar sobre os questionamentos feitos pelo Jornal O Povo, com base em números do IBGE, acerca do número de leitos de UTI, respiradores e médicos no estado.

Como entidade representante dos 184 municípios cearenses, o COSEMS/CE reforça que a estrutura organizacional do sistema de saúde sempre foi considerada de nível bom, mesmo reconhecendo que algumas regiões apresentam um pouco mais de atenção. Com a chegada da Pandemia do Novo Coronavírus, os principais sistemas de saúde do mundo sofreram com os danos da doença e, no estado do Ceará não foi diferente, fazendo com que COSEMS e secretaria estadual de saúde trabalhassem juntos buscando melhorias para conter a pandemia e melhorar os índices apresentados pelo IBGE.

Com base nisso, os dois órgãos parceiros estão vendo a possibilidade de aumento de leitos nas regiões que apresentam essas necessidades e, tendo algumas, já com novos leitos alocados no município polo da região. Atualmente, o estado conta com 1.562 leitos clínicos e 308 novos leitos de UTI, ainda sendo necessário outros 535 leitos de UTI, para gerar um total de 843 leitos de UTI na rede estadual de saúde.

O COSEMS/CE também está em articulação com o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (CONASEMS) e com o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) para dar celeridade a habilitação desses novos leitos, tendo contato diário com o Ministério da Saúde.

*ERRAMOS

O Ceará é o 19º estado brasileiro com maior número de leitos por número de habitantes e não o primeiro.