PUBLICIDADE
Coronavírus
Analise

A filosofia e o coronavírus

14:31 | 17/04/2020
Coronavírus: da aldeia para o globo (Foto: AFP)
Coronavírus: da aldeia para o globo (Foto: AFP)

Por Carlos Getúlio de Freitas Maia

A utilidade da filosofia é quase sempre uma pedra de toque das aulas que dou em introduções, seminários e palestras sobre mais essa invenção grega. Gosto desse problema porque me permite atuar em duas frentes paralelas: por um lado, a da reinvindicação da dignidade da filosofia perante as ciências e os saberes; por outro, a da destituição do primado da utilidade nas sociedades humanas.

O coronavírus, a Covid-19, colocou nossas vidas de pernas para o ar. Nas últimas semanas, muito tem se debatido sobre o mundo pós-pandemia, sobre a disputa desse futuro a-tópico (pois não se sabe se será a utopia do Estado de bem-estar, ou a distopia à Black Mirror de vigilância e punição, ou ainda algo que o espírito humano não consegue antever.), sobre – enfim – o que fazemos com o ultrajante presente do tempo livre, para certas classes sociais, e o ultrajante ultraje do trabalho e vida em condições de morte da maioria de nós.

Foi assistindo um vídeo no YouTube, como muitos de nós aparentemente está fazendo agora, que me deparei com o escritor Henry Bugalho, que me fez uma provocação antiga e adorável: o de se a filosofia está morta nos tempos de hoje, para então resenhar um artigo em que os embates filosóficos contemporâneos estão se desenrolando na Europa e nos Estados Unidos. Ele me provocou: O que nós, “filósofos” podemos fazer frente ao inusitado que a crise de pandemia vem nos reeditar todo dia?

Volto, assim, à questão inicial: a filosofia é, ela mesma, útil para alguma coisa? Essa é uma pergunta mais ou menos evitada nas faculdades e programas de pós-graduação em filosofia no Brasil. E como poderia ser diferente. O modo como a ciência vem sendo tratada no atual ciclo de irracionalismo e barbárie é, mutadis mudandis, o jeito com que a filosofia é tratada desde, pelo menos, Anáxagoras de Clazômenas. No distante ano de 431 a.C., ele foi condenado pelo crime de impiedade, o que nosso histórico católico compreenderá melhor como se fosse um tipo de heresia. Anaxágoras questionou a divindade do sol e da lua e, mesmo com a defesa de Péricles em seu julgamento, foi exilado. Tempos depois, Sócrates seria condenado à morte por impiedade e corrupção da juventude.

Parece que desde seus primórdios no Ocidente, a filosofia teve de, ao mesmo tempo, fazer seu trabalho de pesquisa propriamente dito; e buscar sua justificação perante os olhos da sociedade, que não tinha tempo para perder com questionamentos vazios e em nada práticos, afinal, suponho, a economia não podia parar.

Mas este texto não é sobre a história da filosofia, nem sobre sua absoluta inutilidade para o Estado, a religião, a escola e o ordenamento jurídico. A filosofia é uma anti-norma estabelecida pela capacidade humana de organizar dados em contraponto a eles mesmos. O movimento reflexivo que a filosofia propõe como ponto de partida é a base para sua antipatia, pois coloca em xeque as verdades que tornam nossa vida interna confortável, mentiras que tornam a vida humana tolerável.

No entanto, como história e a literatura, faces divergentes do espaço ficcionalizado humano, mostram, existem crises que quebram o paradigma funcional. E aqui não me refiro à crise perpétua do capital, utilizada desde o final dos anos 1970 como expediente de retirada de direitos da classe trabalhadora na também perpétua luta de classes. Refiro-me ao sentido antigo da palavra crise, que queria dizer um caso absolutamente excepcional de radicalização e quebra de sistema. Dizendo de outro jeito, o coronavírus levou nosso sistema filosófico do laissez-faire moral à sua massa crítica.

O que acontece na arena política é sucedâneo de debates que já se acumulavam na sociedade, de premências que já se gestavam no útero desses povos. Não por acaso, enquanto no Brasil se discute a valer uma renda básica mínima universal, em Israel, estão recriando o preconceito orwelliano de monitoramento e controle. O texto de Paul Preciado é certeiro ao afirmar que a vigilância se torna pornográfica à medida em que penetra nossos corpos com sensores, medidores de temperatura e batimentos cardíacos.

Uma discussão irreal para brasileiros e brasileiras que enfrentam, no caso de Fortaleza, o quase total despreparo da nossa cultura e sociedade para lidar com uma crise pública dessa natureza e magnitude. Se Seul tem testagem de anticorpos em drive thru, Fortaleza tem 70% de seus domicílios sem saneamento básico. Um dos desafios de ser um crítico, um filósofo ou um pensador brasileiro em tempo globais é que é impossível fugir da ambiguidade de ser um país fractal, em que a mesma estrutura de desigualdade se repete exponencialmente, obrigando o pensamento a se duplicar para observar as duas margens do rio sem, com isso, perder de vista a prometida terceira margem.

A filosofia pode, nos tempos da cólera e do coronavírus, atacar o status quo que permitiu que chegássemos até aqui. Quando a cidade de Oran se vê infestada de ratos moribundos e, pouco depois, humanos moribundos com os mesmos sintomas de peste bulbônica, as autoridades esperam que não seja nada e deixam isso para lá. “No dia seguinte, graças a uma insistência tida como fora de propósito, Rieux obtinha a convocação para a Prefeitura de uma comissão sanitária. – É verdade que a população se inquieta – reconhecera Richard – E depois os falatórios exageram tudo. O prefeito me disse: ‘Vamos agir depressa se quiser, mas em silêncio.’ Aliás, ele está convencido de que se trata de um falso alarme.” (Camus, A peste. Pg. 37.)

“A comissão agiu com rapidez e eficácia. Antes que anoitecesse já tinham sido recolhidos todos os cegos de que havia notícia, e também um certo número de presumíveis contagiados, pelo menos aqueles que fora possível identificar. (...) Os primeiros a serem transportados para o manicómio desocupado foram o médico e a mulher. Havia soldados à guarda. O portão fora aberto à justa para eles passarem, e logo fechado. (...) Nesse momento, ouviu-se uma voz forte e seca, de alguém, pelo tom, habituado a dar ordens. (...) O Governo está perfeitamente consciente de suas responsabilidades e espera que aqueles a quem esta mensagem se dirige assumam também, como cumpridores cidadãos que devem de ser, as responsabilidades que lhes competem, pensando que o isolamento que agora se encontram representará, acima de quaisquer outras considerações pessoais, um acto de solidariedade para com o resto da comunidade nacional.” (Saramago, Ensaio sobre a cegueira. Pg. 47-50)

O que uma literatura e outra permitem entrever é que governos ou ordens constituídas não sabem o que fazer diante das crises. E costumam agir, primeiro, como se não houvesse crise e, depois, como se as soluções dos tempos antes da crise pudessem ser válidas para os tempos novos que se impõem.

Um pensamento assim poderia explicar o negacionismo geral que levou e leva o nosso atual presidente da República a atacar a ciência e a pesquisa, a agir contra o interesse público que jurou proteger na transmissão da faixa, no encadeamento ininterrupto de mentiras e imprecisões que levarão indiretamente à morte de incontáveis pessoas, assim como uma viagem internacional em momento de alerta que levará à morte de outras pessoas. O Governo brasileiro é a caricatura de como os Estados nacionais não estão preparados para problemas que transcendem o conceito de fronteiras e soberania. Quando os tempos medievais não conseguiram dar conta das descobertas do Renascimento, o Iluminismo teve que se inventar para os problemas novos que aconteciam.

Quando o imperialismo e o neocolonialismo continuaram levando genocídio e pestilência para as terras-mãe, a necropolítica e a teologia da libertação se inventaram como chaves e horizontes conceituais para enfrentar novos problemas. A filosofia é o território da constante refutação e reformulação. Ela é, com o risco do cômico, a primeira start-up da humanidade. Para enfrentar problemas nunca antes vistos, para isso serve a filosofia. Para repensar problemas antigos à luz de um mundo novo, para isso também serve a filosofia. Quando Napoleão Bonaparte invadiu os Estados alemães, ele foi saudado por Hegel como concretização do Espírito absoluto.

Quando Newton forçou a Física a se reinventar, Kant forçou a teoria do conhecimento a sair de seu sonho dogmático e oferecer novas escapatórias para a cognição humana. Quando a cidadania das cidades-Estado gregas foi solapada pela era dos Impérios que Alexandre da Macedônia iniciava, Epicuro propôs uma filosofia cujo objeto de poder e ação escapava às mãos dos déspotas: ele falava de felicidade. Este é um texto otimista, mas também duro e descrente: não sabemos que tipo de soluções iremos criar nos próximos desenvolvimentos dessa crise: O que sei é que não podemos nos furtar a essa disputa de narrativas, como se chama, na necessidade de que os melhores argumentos levem às melhores ações.

Nesse sentido, não adianta apenas apontar os erros de outros e criticar sem clemência se, num sentido mais amplo, não se puder oferecer nossa própria solução para os problemas que despontam. “Eu dormia com cadáveres sob a mesma coberta,/ pedia desculpas aos cadáveres/ que eu ainda estava viva, // Era uma falta de tato. Me oerdoavam./ Era uma imprudência. Admiravam-se./ A vida/ então era afinal tão terrivelmente perigosa.” (Swirszczynska, Eu construía a barricada. Pg. 89.) A vida, a vida humana mesma, vai continuar depois de 2020, 2021 ect. O que precisamos pensar agora é que tipo de vida queremos levar.

O isolamento tem sido uma experiência pessoal muito difícil que, acredito, me ensinará muito sobre que tipo de pessoa quero ser e em que tipo de coletividade quero estar inserido. Quero transpor essa relação microscópica para o cenário grande. Enquanto escrevo, a Barra do Ceará registra mais casos do que o Joaquim Távora, onde moro, embora o contágio tenha começado nesta região da cidade. Nas duas expedições que nós fizemos ao supermercado mais próximo, as pessoas que lá trabalhavam nos olhavam intrigadas por usarmos máscaras e óculos de natação para nos proteger. Continuavam com os rostos cansados de jornadas exaustivas de trabalho e condições ruins de transporte público. Para essas pessoas, a Covid-19 era só uma história que se escuta na Aldeota.”

Mas o corpo humano é o mesmo na Aldeota e na Barra do Ceará, e não podemos precificar vidas a partir da geolocalização, sob o risco de precificarmos a nossa própria. Em que mundo queremos viver quando explodir o carnaval da saída do isolamento? O mundo que nos trouxe esse isolamento ou algo novo, que nos dê uma margem de manobra maior para tempos de crise.

Por isso, é preciso que estudemos e nos organizemos. Essas são as armas da disputa civilizacional que se dará. É preciso sim confrontar os maiores economistas do mundo e criticar o sistema de produção just-in-time. É preciso que Ouagadoudou, Porto-Príncipe e Caucaia tenham laboratórios de uma rede de bioindústria onde os profissionais locais de bioquímica e biomedicina possam suprir a demanda local por vacinas e remédios. É preciso radicalizar os sistemas democráticos, o que significa ensinar nas escolas o que é democracia e o que não é, com aulas de direito constitucional para estudantes do ensino médio no caso do Brasil.

É preciso redistribuir renda, pois como a doença mostra, não faz sentido acumular quantidades inimagináveis de dinheiro quando a vida humana está em jogo. É preciso repensar a dinâmica entre seres humanos e não-humanos, pois a nossa constante invasão e predação de todos os ecossistemas nos trouxe essa doença e nos trará outras no futuro. É preciso atualizar nossos currículos educacionais, para que eles estejam à altura da tecnologia 5G: Como Harari afirma, se o governo pode nos vigiar, nós podemos vigiar o governo de volta. Creio que uma população com letramento cibernético será menos suscetível a uma ditadura de dados que de outra forma.

Em termos filosóficos, reflexivos e críticos, a experiência coletiva de parada, isolamento e confinamento trouxe à humanidade o motivo que estava faltando para encararmos as nossas fraturas. É necessário ir em frente de alguma forma. Mas não da mesma forma. Nossos governos, sistemas, padrões e valores já não são os mesmos que antes da crise. Talvez um mundo novo pautado na solidariedade entre pessoas e nações, na abertura gradual de softwares para uso livre, na produção responsável e sustentável de insumos de consumo, para a relativização do lucro e distribuição de renda baseada na universalidade dos direitos humanos. Sim, estamos falando do fim do capitalismo como padrão-ouro das relações econômicas e do individualismo como padrão-diamante do comportamento humano. Mas estas soluções são muito mais provocações do que soluções. Essa é uma tentativa de resposta. Espero que encontre todos bem no fim do túnel.

Carlos Getúlio de Freitas Maia é professor de filosofia do IFCE - Campus Tauá