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Coronavírus
Noticia

Caso de Covid-19 é confirmado em comunidade vulnerável de Fortaleza. Paciente está na UTI

Homem de 54 anos vive na comunidade Raízes da Praia, na Praia do Futuro

Ítalo Cosme
14:31 | 14/04/2020
NA COMUNIDADE, 84 famílias vivem precariamente  (Foto: Beatriz Boblitz)
NA COMUNIDADE, 84 famílias vivem precariamente (Foto: Beatriz Boblitz)

Um homem de 54 anos, morador da comunidade Raízes da Praia, na Praia do Futuro, foi diagnosticado com o novo coronavírus. O paciente está internado em estado grave em um hospital particular de Fortaleza. O senhor presta serviço como gari à Prefeitura. Ele mora com pelo menos sete pessoas. Os familiares estão isolados desde a semana passada. O POVO foi à comunidade onde vivem amontoadas 84 famílias, quase 400 pessoas, em casas de madeira e papelão, e não há saneamento básico.

De acordo com os familiares, que só conseguiram retorno sobre o estado de saúde após uma semana de internação, o chefe da família está em estado grave na UTI. O responsável pelo setor no hospital em que está internado ficou de repassar boletim diário sobre o quadro.

Em Raízes da Praia, a situação é precária desde a entrada: um grande buraco foi aberto pela Prefeitura de Fortaleza para receber a água da chuva e evitar alagamentos. No entanto, por não ter um projeto sanitário, a água de esgoto das casas escoa para o local. Mau cheiro, lixo e grande quantidade de insetos são observados por todo lado.

Em visita à casa de Maria Simplício, 52, moradora do local, encontramos 18 pessoas vivendo juntas. Para passar o tempo, jogam bingo no corredor que separa três cômodos de madeira. Os membros da família vivem aglomerados, pois estão sem trabalhar, assim pessoas das outras famílias da comunidade.

“Fazer o quê? Eu não posso sair porque, se eu sair, a doença pode me pegar. Quanto mais eu evitar, pra mim é melhor porque a família é grande. Mas, eu te confesso, o que a gente sofre mais é com as muriçocas”, desabafa Maria Simplício. “A gente queima o pano aqui, mas é com maior cuidado para não incendiar. Quem vê, pensa que eu tô queimando o barraco alheio. Mas não é.”

Para Simplício, a doença é horrorosa. A mulher diz que tem medo. Mas alega não ter condições de se prevenir melhor, se precisa ter primeiro o que comer. “O que eu queria era me prevenir com mais máscaras, um pão de cada dia, o gel, porque aqui eu não tenho dinheiro pra isso.” Na semana passada, a Prefeitura de Fortaleza deu uma cesta básica às famílias. Mas a autônoma diz ser insuficientes.

“Eu trabalho de tudo. Eu sou camareira, lavadeira. Cuido de idosos e crianças. Vou pra lanchonete, restaurantes, sou auxiliar de cozinha em barraca. Mas, ficando parada em casa, eu fico doente”, lamenta.

Um dos líderes da comunidade demonstra preocupação com a situação sanitária do local. Há 11 anos, eles tentam melhorias, mas nunca conseguiram. Agora, “o perigo aumentou”. Francisco de Assis, 59, passou os últimos dias doentes, com febre e dor de cabeça. A respiração está ofegante. Na janela da bodega que toma de conta na comunidade Raízes da Praia afirma: “Não é esse vírus aí não. Eu fui na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ontem. O médico disse que é dengue”, alega.

Taciane Soares é outra líder da comunidade. Ela acusa a gestão municipal de descaso. “A Habitafor e a Prefeitura conhecem a realidade da comunidade. Mas a situação está muito mais complicada por conta do coronavírus. Hoje, a comunidade sofre com dengue e problemas de pele.” Conforme relato da jovem, há duas semanas, 12 crianças foram acometidas com problemas na pele e coceira. Micose, dengues e outros problemas são comuns entre eles, afirma.

A líder afirma ainda que outras pessoas procuraram à UPA após sentir o sintomas da Covid-19. No entanto, sem testes disponíveis, retornaram pra casa. Taciane lamenta a falta de orientação sanitária.

“A comunidade tem dificuldade de se manter em isolamento. São barracos pequenos. As pessoas não podem trabalhar porque a praia não está funcionando. Muita gente vive na informalidade. A gente vive aglomeração dentro da comunidade, não tem como ficar dentro de casa porque o espaço é limitado. Ficam fora de casa, mas dentro da própria comunidade”, explica Taciane.

Para ela, assim como em outras situação, com a confirmação de uma pessoa doente, o vírus deve se proliferar e infectar outros moradores. “A gente quer atenção dos órgãos públicos para olhar a questão sanitária da comunidade Raízes da Praia.”

Ao ser procurada pela reportagem, a Prefeitura de Fortaleza esclareceu que a comunidade Raízes da Praia está situada em uma área que é objeto de ação judicial de reintegração de posse por parte dos proprietários particulares.

"Desde 2013, o Município vem mantendo diálogo com os representantes da comunidade, com o intuito de chegar a uma solução, inclusive com estudo técnico da área, bem como apresentou proposta de inclusão das famílias no Programa Minha Casa, Minha Vida. Não houve consenso entre os próprios moradores", traz nota.

Também a partir de nota, a Prefeitura também informa manter um grupo de trabalho formado pelas secretarias do Desenvolvimento Habitacional (Habitafor), de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) e da Infraestrutura (Seinf) que, juntamente com a Cagece, vêm discutindo um plano de intervenção estrutural para o local.

"O grupo de trabalho já efetuou o cadastro social que identificou 86 imóveis. A partir dessa identificação, o projeto segue agora com o levantamento topográfico da área para o estudo de futuras ações de infraestrutura, principalmente drenagem e pavimentação, além do projeto de saneamento. É importante destacar que no início desta semana, 84 famílias da comunidade foram contempladas com cestas básicas dentro das ações de proteção social do Município, em razão da pandemia do coronavírus e também foi articulada uma nova visita técnica da Defesa Civil de Fortaleza ao local”, segue a mais na nota oficial.

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