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Coronavírus
NOTÍCIA

Diante da quarentena, saiba como manter a rotina de crianças com autismo

Atividades com água, tinta e até mesmo cosquinhas ajudam na continuidade do desenvolvimento da criança no período; O POVO reúne algumas dicas de atividades para pais e responsáveis

Marília Freitas
10:59 | 02/04/2020
Sem atividades terapêuticas presenciais, melhor dica é manter rotina em casa (Foto: Mauri Melo)
Sem atividades terapêuticas presenciais, melhor dica é manter rotina em casa (Foto: Mauri Melo)

Neste ano, a comemoração do Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado nesta quinta-feira, 2, será um tanto quanto diferente. Estima-se que existam dois milhões de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no Brasil, visto que há escassez de dados epidemiológicos. Muitas dessas pessoas, geralmente crianças que mantêm uma rotina diária, tiveram suas rotinas bruscamente paralisadas diante da pandemia e de decretos que instauraram o isolamento social no País. Essa sensação de quebra e a falta de uma previsibilidade com a situação atual podem deixá-los confusos, gerando desconfortos e crises em casa.

Pessoas que convivem no espectro autista têm diversas características distintas e encaram as situações cotidianas de formas diferentes. Mas todas elas se relacionam em alguns pontos específicos, como as dificuldades de comunicação e de estabelecer um relacionamento social, bem como os movimentos repetitivos conhecidos como estereotipias. Daí vem a necessidade de implementar uma rotina com terapias e outros estímulos comunicacionais que proporcionem uma adaptação ao autista.

Em momentos de quarentena onde diversos estabelecimentos, como escolas e parques, estão fechados, a rotina de crianças no espectro pode ficar bagunçada rapidamente, como explica a psicóloga Bárbara Serpa, que há cinco anos atende crianças e adolescentes com TEA. “Dentro do espectro, as crianças gostam muito das previsibilidades e, sem rotina, isso pode desencadear em crises e ansiedades. Como não sabemos quanto tempo iremos ficar em isolamento, isso pode trazer consequências devido a perda de estimulações com profissionais que trabalham com elas.

No momento atual, é necessário estabelecer um forte vínculo entre família e criança para não acontecerem regressões em seu desenvolvimento ou a perda de algumas habilidades adquiridas nas terapias presenciais. Mas as incertezas sobre que atividades fazer com a criança em casa podem somar-se às obrigações do home office, trabalho em casa aderido por diversas empresas nesse período de isolamento social.

Diante da tentativa de consolidar simultaneamente todas as situações, o cansaço físico e mental torna-se presente nos pais e responsáveis, como explica o coordenador do Grupo de Estudos em Neuroinflamação e Neurotoxicologia (Genit) da Universidade Estadual do Ceará, Gislei Frota Aragão. O projeto estuda o Transtorno do Espectro Autista. “No momento em que essa criança deixa de ter essa atenção na quarentena, isso pode impactar nos cuidadores também. É preciso que eles tenham certa habilidade para trabalhar com a criança no momento em que elas não estão tendo a assistência presencial”.

Primeiramente, não há necessidade de se culpar por não estar dando conta de tudo. A empatia é o ponto de partida para reorganizar a vida em quarentena e se adaptar a realidade de cada família. "Por mais que não exista a mesma rotina de antes, é necessário ter uma rotina mínima com a criança. Não precisa ser algo fixo, mas sim uma rotina na qual a criança entenda o que está vivendo e o que está fazendo", explica Bárbara. Além disso, também é importante que a criança com TEA tenha seu momento sozinha. “Deixar a criança entediada também é importante, pois nem sempre em nossa vida temos preocupações o tempo todo”. 

Logo depois, é necessário explicar a situação atual do mundo para a criança. Com a possibilidade de surgirem questionamentos sobre a escola ou a terapia, a explicação deve se adaptar a linguagem e a faixa etária individual de cada uma. "Crianças maiores podem assistir ao jornal e entender o isolamento, mas é importante sempre ser franco sobre a situação", explica Gislei. Daí a importância de trazer um ambiente mais tranquilo o possível para o autista. Evitar luzes acesas ou músicas altas trazem uma estrutura que possibilita que a criança se tranquilize e realize possíveis atividades que consolidam uma rotina em casa.

Resta identificar o que a criança tem interesse em fazer. Partindo deste filtro, as atividades em casa podem ser feitas pelos pais ou responsáveis. Brincadeiras sensoriais que envolvem tato, audição, fala e visão são alternativas simples que unem os estímulos tão necessários para o desenvolvimento saudável da criança. Segundo Bárbara, tintas, água, papel, brinquedos e até mesmo cosquinhas são alternativas nesse período de suspensão de terapias presenciais, pois são pré atividades necessárias para movimentos mais complexos.

Para diminuir o cansaço entre os pais e responsáveis, trocar momentos de atividades e dividir tarefas entre os adultos da casa também ajudam na construção de uma rotina. “O momento de entrega à criança é o mais importante”, conclui Bárbara.

Atividades lúdicas ajudam a lidar com a quarentena

Kátia Miranda é pedagoga e mãe de Oziel, 8, diagnosticado com TEA no espectro moderado aos três anos de idade. Antes do isolamento social ser decretado em todo o Ceará, Oziel tinha atividades diárias como ir a escola e ir às terapias presenciais, dentre elas ocupacional, musicoterapia e fonoaudiologia. Com a paralisação dessas atividades, está há 16 dias em casa acompanhado dos pais e realizando brincadeiras sensoriais idealizadas por Kátia.

Pais de Oziel, 8, estabeleceram rotina em casa para o filho
Pais de Oziel, 8, estabeleceram rotina em casa para o filho (Foto: Arquivo Pessoal)

Oziel se desorganiza com a falta de rotina e é sensível a barulhos como latidos de cachorro, recorrentes em casa. Para reduzir a sensação de instabilidade, Kátia ocupa o tempo com brincadeiras que envolvem atividades sensoriais, como leitura, escritas e falas. O resultado vem sendo positivo: em todo o período de quarentena, Oziel só teve uma crise.

"Ele quis sair de casa e eu falei que não podia. Para ele entender a situação, desenhei a escola e informei para ele que estava fechada." Desde então, Kátia vem praticando as atividades lúdicas e postando os vídeos em redes sociais para incentivar e orientar outras mães sobre o que fazer diante da situação de pandemia.

As atividades lúdicas já eram desenvolvidas anteriormente por própria recomendação das terapeutas. Oziel aprendeu a ler e a identificar partes do corpo humano com atividades feitas em casa, que logo se estabeleceram como rotina diante da pandemia. A tentativa de mantê-la em casa vem, aos poucos, funcionando. Oziel tem horários estabelecidos e também ajuda a mãe nos afazeres de casa.

"Ele enche garrafas de água e guarda brinquedos e outros itens, como verduras na geladeira. Foi assim, inclusive, que ele aprendeu os nomes e as cores dos objetos", explica. As atividades em casa continuam os trabalhos desenvolvidos nas terapias presenciais, o que diminui as chances de Oziel ter algum tipo de regressão em seu desenvolvimento.

A pedagoga atualmente é autônoma e trabalha em home office com vendas de cosméticos e de alimentos. No entanto, resolveu deixar de lado suas atividades financeiras neste mês para se dedicar totalmente ao filho. “São atividades que estão ajudando ele a ficar bem. Acredito que, se eu não estivesse ocupando o tempo dele, as crises seriam mais recorrentes”.

Sua maior dificuldade é a de possibilitar os cuidados integralmente. Ao lidar com atividades com o filho e afazeres de casa, o cansaço também se torna parte da rotina. A expectativa é de que, com o pai de férias do expediente, a criança continue praticando atividades com os dois conjuntamente. "A realidade de diversas famílias é afetada pela situação financeira. Mas não podemos deixar de estimular nossos filhos devido a isso. O que vai contar é o seu envolvimento e persistência com a criança", conclui.

Atividades que estimulam o desenvolvimento da criança

- Pique-esconde; com um pano, se esconda da criança ou peça para ela o procurar pela casa.

- Pega-pega; em casa, brinque com a criança e divida entre pegadores e os que devem ser pegados.

- Atividades sensoriais; durante o banho, traga brinquedos apropriados para a água e deixe eles com a criança. Estimule a imaginação da criança, fingindo situações

- Brincadeira do sentido; com os olhos da criança vendados, estimule ela a sentir cheiros e texturas diferentes. Sabonetes, shampoos e alimentos como milho e arroz podem ser alternativas.

Brincadeiras simbólicas; crianças com TEA tem dificuldades de criatividade e imaginação. Brincadeiras com bonecos, carros e outros itens em situações cotidianas, como "comendo" ou "desenhando" ajudam a criança a entender a situação.