PUBLICIDADE

Correr é natural?

01:30 | 28/10/2019

No último dia 12 de outubro, o atleta queniano Eliud Kipchogue surpreendeu o mundo ao percorrer 42.195 metros, correspondentes à distância de maratona, em 1h59min40seg. Apesar do feito incrível, esse tempo não foi homologado como novo recorde mundial, porque não ocorreu em prova oficial. Na verdade, uma empresa multinacional patrocinou um evento com toda infraestrutura de apoio, tecnologia e condições apropriadas para que alguém conseguisse o desejado "SUB2". No dia seguinte, a também queniana Brigid Kosgei estraçalhou o recorde mundial na Maratona de Chicago com o tempo de 2h14min04seg.

Os dois resultados históricos proporcionaram à corrida de rua um gigantesco espaço tanto nas mídias tradicionais, quanto nas redes sociais e isso é excelente, pois penso que tal interesse sobre a temática corrida pode ser o "gatilho" que algumas pessoas precisam para trocar o tempo de sofá ou de exposição à tela por um projeto de atividade física que pode até resultar no treino de corrida.

Alguns "especialistas" defendem a ideia que correr é um gesto natural do ser humano e por isso simples de realizar e praticar. Eu acredito que há algumas décadas, correr realmente era uma atividade física familiar para maioria das pessoas, afinal uma fração importante do dia das crianças era dedicada à experimentação lúdica dos movimentos ditos naturais: andar, correr, saltar, rolar, puxar, empurrar e arremessar, até porque não havia outra opção, já que esses movimentos faziam parte das brincadeiras e esportes praticados. E hoje? Continua assim?

Com a redução das horas de Educação Física escolar, avanço da tecnologia do menor esforço e desinteresse pela prática esportiva, muitas crianças e adolescentes ficaram com um repertório motor bem limitado. É possível perceber isso, quando adultos, com histórico de sedentarismo, tentam voltar a correr: posturas desajeitadas, sobrecarga indevida nas articulações, esforço além da conta, isso sem contar o déficit de aptidão física.

Em minha opinião, para algumas pessoas, o gesto cíclico da corrida definitivamente deixou de ser natural e precisa ser reaprendido, com planejamento, orientação profissional e treino. Penso que, assim como em todos os esportes, NÃO existe um modelo único de postura padrão para correr. Afinal pessoas com dimensões corporais, níveis de aptidão física e objetivos distintos não extrairão o mesmo benefício de uma técnica "engessada". Porém, todas as pessoas podem melhorar a forma como correm, desde que saibam o que fazer e treinem até que os ajustes necessários sejam internalizados para que a concentração seja direcionada para outras necessidades durante a prática.

Há alguns meses, um importante pesquisador americano em biomecânica, ao defender sua metodologia aqui no Brasil, afirmou que mudanças na técnica da corrida eram mais fáceis que em outros esportes, pois o atleta não precisava pensar em mais nada durante a prática. Contando essa história para alguns dos meus atletas de corrida, a reação é sempre com risos irônicos e aquela expressão de "sabe de nada inocente". Correr exige sim: foco, concentração e sucessivas tomadas de decisão. Nesse contexto concordo plenamente com uma frase do meu amigo, treinador e grande atleta de trail running Plauto Holanda: "Treinar corrida é bem diferente de sair correndo".

Bons treinos.

TAGS