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Sânzio de Azevedo

00:00 | 24/05/2019

Saudades do meu amigo Sânzio de Azevedo, que curte merecida aposentadoria depois de uma vida dedicada à Cultura, especificamente à Literatura Cearense, deixando (mesmo depois de alguns anos longe da universidade) uma legião de admiradores e saudosos amigos - alguns, feito eu, em débito de visitas e telefonemas (em parte devido aos tempos bicudos que nos assolam).

Conheço Sânzio de Azevedo desde a década de 90 do século passado. Vi-o pela primeira vez no lançamento do livro Moreira Campos em quadrinhos, organizado pelo mestre Geraldo Jesuíno, no salão nobre da reitoria da UFC. Trocamos conversas e livros e vamos construindo uma amizade que dura até hoje.

Tenho aprendido muito com o maior conhecedor da literatura cearense, e nos falamos quase todos os dias, não só de literatura, mas sobre quase tudo; só temos evitado falar ultimamente de política, devido a já termos discutido feio algumas vezes, mas nada que alguns dias de silêncio não tenham curado.

Difícil conversar com ele e não ouvir algumas expressões bem suas: "Cortar a casaca da humanidade", "À puridade", "Mandraque" e tantas outras, que sempre saem de sua boca acompanhada de uma gargalhada contida porém sincera.

Palestrante sem igual, discorre sobre seus assuntos preferidos com segurança, mas principalmente com um humor bem característico e, acima de tudo, inteligente.

De tanto se destacar como historiador e crítico literário foi restando quase desconhecido como poeta e contista, gêneros que vai levando de forma subterrânea e constante pela vida afora.

Três livros de poesias publicados e um volume de contos inéditos (alguns já publicados em revistas e suplementos) passam quase despercebidos até mesmo dos amigos mais chegados.

A ele dediquei um conto: Um velho, do qual gostou desde a primeira leitura, deixando-me surpreso com a intensidade de sua admiração por um texto sobre o qual não dedicava nenhuma atenção especial.

Em homenagem a esse "Sânzio de Azevedo ainda inédito" quero apresentar a vocês o poema dele de que mais gosto:

SONETO I

O papagaio traz no bico a sorte

do transeunte da cidade grande;

dragões de ferro andam semeando a morte

mas o realejo em música se expande.

Fanhoso, ele renasce a velha valsa

que sobe com o barulho da avenida.

Juntas as duas se afigura falsa

alguma delas na manhã perdida...

Saias-balão, casacas e cartolas

misturam-se aos "blue-jeans" e minissaias;

gemem sirenas, rangem grafonolas,

cresce o edifício em meio às samambaias.

Rugem motores de hoje antigamente

ou cantam flautas de ontem no presente?

Sânzio de Azevedo

Cantos da Antevéspera (1999)

Pedro Salgueiro