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As manifestações: o que dizem do Jornalismo?

00:00 | 02/06/2019

Nos portais de notícia, a manchete costuma variar ao longo do dia. O assunto que é destaque em um determinado momento pode não merecer mais tanta ênfase em outra hora. O foco é flexível e se altera de acordo com os acontecimentos. Faz parte da dinâmica dos fatos. Em um jornal impresso, o assunto da manchete na primeira página é o fato mais importante da edição - que foi a notícia do dia anterior ou uma informação exclusiva da edição. E este é um dos grandes desafios do impresso nos últimos tempos: apresentar a notícia do dia anterior com uma perspectiva analítica, sem o trivial descritivo já contado nos portais e redes sociais.

Alguns assuntos, pela relevância, pela factualidade e pelo impacto na vida das pessoas, não devem deixar de ser abordados na edição. Nem podem deixar de ser destacados na capa. Na semana que passou, um dos assuntos que ganharam destaque em certos momentos no O POVO foi as manifestações do dia 30 de maio, no Ceará e em outros estados, acerca das verbas para a Educação. A questão foi manchete da edição de sexta, dia seguinte aos protestos, com matéria de duas páginas. A cobertura focava em Fortaleza, mas abordava a manifestação pelo País.

No jornal concorrente, Diário do Nordeste, o assunto foi ignorado na capa. Internamente, foi tratado de forma tímida em uma matéria nacional de três colunas, citando brevemente o protesto local com foto de Fortaleza.

A falta de destaque da cobertura de um assunto tão palpitante como este não é apenas ruim para o jornal ou para a concorrência entre os dois, que se torna frágil, mas é péssimo para o Jornalismo.

Crise?

Noticiar um protesto, informar uma manifestação, avisar ao público leitor sobre um fato da conjuntura política do País deveria se sobressair a quaisquer que fossem os princípios do jornal, que já tem o seu espaço, o Editorial, para se manifestar. A partir do momento em que deixa de publicar uma notícia ou minimiza um fato evidente nas últimas horas, o não dito se revela e dá margem a uma série de especulações. O Jornalismo, que já vem sofrendo tantos ataques nos últimos tempos, não precisa de mais esse.

Quando me refiro à cobertura de manifestações pelos veículos, aceno aos protestos de um lado e de outro, favoráveis e contrários ao Governo Federal. Ambos devem merecer a atenção e o cuidado do jornal, como um reflexo do recorte da história que vivemos. Não é justo nem honesto com o leitor, sob ponto de vista nenhum, cobrirmos apenas um dos protestos, dando a impressão de que "o outro lado" não se manifestara. Não deve ser opção do veículo, deve ser preocupação com a informação.

Ao mesmo tempo, demanda-se um cuidado sobressalente para que a atenção, o espaço e o destaque que sejam dados a ambos os lados sejam semelhantes. É óbvio que há a possibilidade de, por motivos vários, os eventos não terem a mesma quantidade de público e não terem o mesmo alcance. Em nome do ideal de imparcialidade, em busca do qual tanto trabalhamos, um veículo comprometido com a verdade não pode ousar ocultar a realidade.

Mesmo para o leitor que não se interessa pelo assunto, como o dos protestos, ignorá-lo em sua cobertura é uma falha tremenda. O POVO viveu situação dessas em abril passado, quando deixou de noticiar um protesto contra o STF, no mesmo dia em que publicou a notícia sobre as manifestações a favor do ex-presidente Lula. Não eram assuntos antagônicos, mas reuniam públicos distintos. A ausência da cobertura, então, justificada por um desconhecimento da editoria, repercutiu mal.

Na segunda-feira passada, após as manifestações pró-Bolsonaro, os atos viraram manchete do jornal, com reportagem interna, tema de editorial e assunto de coluna. A questão é dar o espaço que a notícia deve ter. Os leitores são plurais, de matizes ideológicos diversos, que precisam ser informados sem o filtro ideológico do jornalista, por mais resistentes que alguns sejam. Equilíbrio ainda é a estratégia.

Noticiar um assunto que é interessante para o leitor - porque, além de toda a carga ideológica, mexe com a sua rotina - é função do Jornalismo. É certo que vivemos tempos políticos tensos e densos que nos exigem mais acurácia e critério. É certo que se fala e se vive enxugamento e crise por todos os lados. Mas se as Redações estão em crise, o Jornalismo não deve se curvar.

Daniela Nogueira