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O risco da não notícia

01:30 | 12/05/2019

Para um fato ser classificado como notícia, ele precisa atender a alguns critérios. Um deles é o interesse público. Se o fato realmente interessa e é útil ao grande público - e não apenas a um nicho, específico -, há possibilidade de ele virar notícia. Também é necessário avaliar se é algo novo, original, inédito, atual. É por isso que nem tudo vai parar nas páginas de jornal, nos portais de notícia ou nas plataformas noticiosas em geral. Há uma seleção feita pelos jornalistas (ou deveria haver).

Tudo isso é baseado nos critérios de noticiabilidade e nos valores-notícia que compõem a construção jornalística. Como teoria, nem sempre está tão claro para os leitores e para o público em geral. Assim, em certos casos, deve-se definir o que é notícia e o que não é. Afinal, também se discute a "não notícia".

Na semana que passou, recebi a ligação de um leitor que comentou a matéria "Machado de Assis era negro" (4/5/2019, Vida&Arte, págs 4 e 5). A informação havia sido publicada um dia antes, na página Farol, com o mesmo título (!): "Machado de Assis era negro" (Farol, 3/5/2019, pág. 3). O leitor, professor universitário, questionou se a informação era mesmo uma notícia a ponto de merecer o destaque pela imprensa nacionalmente e, particularmente, pelo O POVO. "Para mim, isso é uma não notícia. Não estou entendendo toda essa repercussão em torno de algo que nada tem de novidade. Vocês, da imprensa, acabam jogando luz em um assunto e reforçando essa questão (da negritude do autor), em vez de discutir racismo e literatura negra por outros pontos. Soa muito mais político, pelo momento que se vive, do que preocupado com a cor da pele do autor brasileiro", comentou o professor, em uma longa conversa que tivemos sobre não notícia.

O não dito

É certo que aquilo que a imprensa não divulga, omite, dissimula ou tenta disfarçar está no campo da não notícia. Assim como os fatos que não se encaixam naqueles critérios mencionados acima também podem ser assim considerados. Em algumas vezes, não é tão objetivo assim qualificar algo como não notícia. Em outros casos, porém, é muito claro. Há aquelas matérias também que muito questionam e nada informam, cheias de enunciados interrogativos, jogando para o leitor diversas variáveis, sob a justificativa da pretensa neutralidade. Ela não existe.

Na situação em questão, a matéria foi baseada em uma campanha feita pela Faculdade Zumbi dos Palmares (SP), que, a partir de uma foto clássica do autor, lançou o movimento "Machado de Assis Real". A intenção é divulgar a imagem do escritor tal qual ele era - negro. De acordo com o texto da campanha, o objetivo é estimular novos escritores negros e dar oportunidade à sociedade de "se retratar com o maior autor do Brasil". Ora, ao longo dos anos, o autor teve sua foto esbranquiçada nos livros. Talvez a cor de sua pele seja mais amplamente conhecida pelos estudiosos da literatura e da cultura negra. Daí, a necessidade da campanha e a intensidade da repercussão midiática.

Considerar que o fato se trata de uma não notícia pode ser algo subjetivo, é verdade, mas também especificamente significa muito sobre quem diz. Talvez o assunto não seja interessante para quem o lê. Provavelmente o tema não seja novidade para quem o consome. Ou - quem sabe? - não tenha gerado um impacto no público do qual ele faz parte. Há uma relevância no tópico.

A discussão da não notícia pode ser aprofundada para o que não é dito, mostrado ou discutido na imprensa. Se o que é apresentado significa, o que não é também importa. Como, por exemplo, explicar a omissão de certos veículos diante de assuntos tidos como importantes e polêmicos na conjuntura nacional? O não dito, dentro do discurso de um jornal, representa o quê para o público? Se a intenção é demonstrar imparcialidade, a ideia é muito pior. Porque o leitor não suporta omissão, mas precisa saber qual a ideia do veículo cujos produtos consome.

Outro risco é abordar determinados assuntos, atuais e polêmicos (vejamos a Reforma da Previdência, o porte de armas, as declarações do presidente e a crise na Venezuela, por exemplo), em seus textos, e apenas questionar, empurrando para o leitor a obrigação de desvendar a posição dos veículos. A terminologia utilizada, por vezes, precisa estar clara: é golpe ou não é golpe? É ditador ou é presidente? Ora, não assumir um posicionamento já não é um posicionamento?

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