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Os comentários dos leitores: quem vigia os vigilantes?

00:00 | 21/04/2019

Os textos presentes nos comentários dos leitores são exemplos claros da participação da audiência na internet, seja no portal de notícias, seja nas redes sociais. Seriam um espaço relevante de contribuição se utilizado com opiniões consistentes e críticas coerentes, reforçando, assim, o papel da interatividade do jornalismo, da criação do engajamento e da promoção da interlocução entre os consumidores/produtores das notícias. Hoje em dia, porém, os comentários - aquele espaço logo abaixo das matérias, dos artigos e de quaisquer outros textos do jornal - viraram uma área de horror, pelas trocas de ofensas. Espelho do comportamento, uma forma de expressão social da conjuntura atual.

No O POVO, também é assim. "Em vez de serem espaços de discussão política, em algumas matérias, há xingamentos de toda ordem nos comentários. Às vezes, há moderação. Às vezes, não. É uma barbárie num nível tão baixo que mancha a imagem do jornal", comenta o leitor Jarbas Vasconcelos. Além, disso, ele conta que se sente "excluído" por não poder participar de alguns comentários no portal por não ter conta na rede social Facebook - o que considera um equívoco. "A questão da liberdade requer vigilância, para que a liberdade de expressão não extrapole os limites do respeito ao outro, não crie espaços de fundamentalismo e não barre outros espaços e outras vozes", ressalta Jarbas, que é doutor em Educação.

Ao longo dos últimos meses, têm sido frequentes as reclamações de leitores acerca de alguns comentários sobre apologia à tortura, violação de direitos e desrespeito ao próximo. Há muitas perguntas sobre moderação desses comentários. Nas redes sociais, o problema se estende.

Debate?

O editor do O POVO Online, Érico Firmo, explica por que é necessário o perfil no Facebook para comentar no portal. "Foi a ferramenta tecnológica que melhor se adequou ao nosso portal. Várias plataformas, inclusive de compras online e outros fins, usam plugins Facebook ou Google (porém, comentários não é a natureza do Google). É uma solução tecnológica que atende ao grosso da demanda. Já tivemos plataforma própria, mas era bem menos eficaz. E, pelo contrário, a identificação, via Facebook, é mais simples. Convenhamos, o Facebook tem mais instrumentos que nós para identificar fakes. O Facebook desenvolve políticas sobre isso. Acompanhamos conteúdos com maior potencial de problema, mas o fato é que, enquanto lemos um, vários outros comentários são publicados. Temos foco quando potenciais crimes são cometidos, com ameaças ou calúnias".

Assim, sabe-se que há uma moderação, sabe-se que há usuários falsos a comentar, mas todo o processo não dá conta de acompanhar tudo. Se no portal há esse cuidado com o acesso via Facebook, nas redes sociais, o problema é bem maior.

Para o cientista político Cleyton Monte, essa onda de intolerância vivida no País acaba reforçando o ódio e a polarização. Parece, lembra ele, que vivemos ainda o recente clima de pós-eleição 2018. "Não diria que esse debate é irrealizável, mas ele se torna muito difícil nas redes sociais, porque as pessoas que têm uma certa disposição para debater querem evitar esse desgaste. Quando há um nível muito forte de polarização, elas pensam: será que realmente vale a pena eu trazer a minha opinião e me desgastar?", analisa ele, que é membro do Conselho de Leitores do O POVO.

Os comentários dos leitores são uma ferramenta acessível de aproximação com o público. Lá, os usuários se sentem estimulados à participação e ao diálogo com o produtor e com os demais leitores. Ainda há um certo sentimento de pertencimento do leitor àquele veículo. A plataforma de comentários é a concretização do desejo de interagir por parte do leitor/usuário.

Quando essa forma de relação causa um mal-estar muito maior, como ameaças, violações e desrespeito, estamos diante de problemas graves. Por falta de recursos humanos ou tecnologia para gerir as publicações, os veículos estão perdendo o controle sobre as reais funções do instrumento, como um importante espaço de conteúdo de credibilidade que tanto demorou a ter legitimidade na mídia. É certo que as vozes precisam ser ouvidas (e lidas), porque fazem parte de um novo formato de consumo da mídia. No entanto, quando se valem de xingamentos, não há debate, o argumento se desqualifica e o uso propositivo dos comentários lamentavelmente se enfraquece.

Daniela Nogueira