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VERSÃO IMPRESSA

O efeito manada. Mais nada

00:00 | 17/02/2019
Donata Meirelles, ex-diretora da Vogue Brasil
Donata Meirelles, ex-diretora da Vogue Brasil

Há dois mundos paralelos convivendo no nosso dia a dia. As pessoas trabalham as suas versões reais e virtuais. No virtual, com filtros. Não apenas nas imagens, mas também nas opiniões. E, como tudo na vida, o real é sempre melhor que o virtual. A propósito, no virtual, como em um videogame, há um imenso contingente de pessoas que se consideram no direito de apontar armas e atirar em quem julgarem merecedoras. Sempre na segurança do ambiente controlado.

Em casa, até se soltam um pouco. Nos grupos ultrarestritos de WhatsApp, um tanto mais. Nas arenas mais abertas, apenas aquilo que cai bem perante o entorno. Apurar a fundo antes de tomar posição? Pra quê? O que conta é ficar bem ante a manada de iguais. Não é de hoje. O que mudou foi apenas a facilidade de acessar púlpitos particulares, as tais redes sociais. A opinião média virou apenas a "minha timeline". Manada. Mais nada.

Esta semana houve dois novos alvos à mão. Duas mulheres. Talentosas e livres. Tudo aquilo que as ditas mulheres engajadas mais defendem enquanto militantes de uma idealização clássica de sucesso feminino. Ivete Sangalo e a diretora da Vogue Brasil Donata Meirelles foram fuziladas. Caíram em desgraça no microcosmo das redes sociais por conta de uma atitude não tomada e de uma atitude tomada, respectivamente. Nem é preciso entrar no mérito do que deixaram de fazer ou fizeram, basta mirar no ímpeto de quem as julgou. A disputa pela primeira pedra é acirrada.

Um artigo na revista Carta Capital intitulado "Ivete Sangalo, até quando irá se apropriar e fechar os olhos?" revelou o complexo de viralata a que se referia Tom Jobim: "No Brasil, sucesso é ofensa pessoal", dava o Tom. No abre do artigo na Carta, mais provocação: "Milionária, cantora que fez sucesso com música que descende da cultura negra prefere o sono esplêndido com retrocessos no país". Reparou no milionária? O texto começa dizendo: "No Brasil, terra onde a escravidão é romantizada, tem muitos artistas que vivem tranquilamente como se por nada fossem responsáveis ou com nada se responsabilizassem. Artistas que convivem com cenários coloniais com uma naturalidade espantosa, como ficou nítido recentemente na festa de Donata Meirelles, chefe da revista Vogue, que achou de bom tom remontar o cenário colonial com mulheres negras vestidas de mucamas e brancos brindando suas taças e posando em tronos de candomblé - que para muitos eram tronos de sinhá. Donata é casada com o publicitário Nizan Guanaes, envolvido com a propaganda positiva de agrotóxicos a serviço da bancada ruralista, e ambos recepcionaram a elite política e artística do País, entre a qual parte que se diz engajada como Caetano Veloso, a família Gil, Regina Casé, entre outros."

Um prato feito e perfeito ao gosto de quem quis saracotear em cima das duas mulheres com sangue e alma baiana. Sobrou também para a satanização dos agrotóxicos. Sim, bacana consumir orgânicos, mas é bem mais caro e parece ser impossível alimentar tanta gente no mundo sem se defender das pragas com químicos.

Mas o que importa discutir isso, se é simpático sair por aí condenando o agronegócio antes de tudo? Nizan e Donata devem em larga medida a projeção que obtiveram, cada qual na sua praia, ao que chamam de baianidade. É de Nizan parte da autoria daquele hino do carnaval baiano, o "We are the world" soteropolitano: "We are carnaval, we are, we are folia. We are the world of carnaval, we are Bahia".

Donata deu a sua explicação para aquela cadeira. Disse que era um móvel do candomblé e que as moças usavam aquela indumentária como um trajo típico. Não, ninguém lembrou das alas das baianas de todas as escolas de samba do Rio, incluindo a Unidos de Tuiuti, ou das baianas do Pelourinho. Para quê? O importante é fuzilar, mesmo sendo contra o porte de armas.

Quando o cargo
é o parentesco

Andamos para trás quando família passa a fazer parte da gestão pública. Por mais meritórias que possam ser. É uma questão de fundamento. A velha analogia com a mulher de César, aquela a quem não bastava ser séria, mas também parecer. Por melhor que seja o currículo, não convém. E na semana que passou deparamo-nos com uma situação ainda pior. Repulsiva aos olhos de quem não naturaliza este tipo de coisa. Aquele desgate patético do ministro (até ontem de manhã era) Gustavo Bebianno por conta de ataque do filho-vereador (vereador!) do presidente Bolsonaro foi demais. É de pobreza extrema quando o cargo é o parentesco. Se já é abominável quando sutil, quanto mais de modo escrachado. Que coisa mais brega.

Abuso dos
gatos pingados

Onde já se viu? No Brasil, os gatos pingados têm poder. Quinze deles param o Rodoanel em São Paulo. Outros poucos fecham rápido a Avenida da Universidade com 13 de Maio, em Fortaleza. Outros quantos poucos forem decidem fechar qualquer rua para por um bloco na rua, sem dormir de touca nem nada e fecham. Dão de ombros para ambulâncias, carros de polícia ou quem quer que seja. Já ocuparam até o Palácio da Abolição, sede do Governo do Ceará. E ainda falam em intolerância.

Sem políticas,
mais crises

Alguém lembra da última campanha institucional da Vale? E do hipermercado Extra? E da Vogue Brasil? Não, né? E de compromissos firmados por estas três companhias com princípios de sustentabilidade e de respeito à vida e à diversidade? Alguém? Mais alguém? Provavelmente não lembra. No mercado local já vimos reputações serem desmatadas e discursos caírem ao solo ante atitudes indiferentes aos impactos ambientais. Ficou mais complexo - e não necessariamente mais caro - dar as respostas. Precisa ter verdade. E as crises mostram de modo recorrente que comunicação não pode ser um ação pontual. Não é coisa para press release ou anúncio isolado. Vai muito além. São políticas.

O Povo