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Fantasmas

00:00 | 03/07/2019

Numa arribação às avessas, voltei pro sertão porque nunca fui do sertão. Esta paisagem de morte não diz nada, garranchos de vegetação, rascunho esquecido por algum viajante que passou por aqui muitas décadas atrás.

Conhecia de estudar e ler. Figurações de uma vida, uma estética de escola decorada às pressas para a prova do dia seguinte: características, traços dos romancistas, as gerações de poetas, as fases de meia dúzia de escritores que situaram seus dramas naquele mesmo lugar que pra mim era totalmente destituído de paixão.

O sertão da literatura não é o sertão de verdade. O sertão de verdade não é em toda parte, é uma exceção que eu procurava a fim de confirmar minha própria mentira. É um lugar de negação. Não é mágico, e nele se diluem as certezas. Basta sair à boca da noite e parar em qualquer bar, homens de rosto afogueado que não creem em mais nada e carregam no peito a máquina luzidia do desespero. Estão sempre à mercê de qualquer coisa.

É travessia sem volta. Um lugar pra esquecer as dores. Deixá-las aqui a morrer de fome e sede, perecendo dia após dia, desidratadas do mínimo de que necessitam. No sertão todos somos como Baleia e Macabéa.

Mas não vim ao sertão pra morrer, vim pra chorar, eu dizia a mim mesmo. Cumprir o ritual e depois secar novamente. Morrer é mais fácil na capital. Basta um descuido, e pronto. Na saída do banco, na porta da farmácia, na parada de ônibus, depois de um mergulho no mar, entrando no carro que pedi pelo aplicativo. Há muitas hipóteses para a morte na cidade, todas previsíveis, despidas de qualquer sentido e simbolismo. Mortes estúpidas.

Hoje levantei cedo, o escuro da casa matizado por estrias da luz forte que atravessa o telhado assentado muito tempo atrás. Caibros antigos, vigas de cair sobre cabeças que não estão mais aqui, fiações já comidas por bichos. Pelos cômodos a única presença do café coado.

Quis ir embora, mas ainda tardo a pensar que não é hora de deixar a terra. Faltam oito dias pra completar a novena. Um já se foi. Oito dias, e refaço o estirão de penitência autoinflingida, a prova dos nove a que me submeti sem qualquer traço de heroísmo ou santidade. Depois disso, regresso, agora outra pessoa.

Eu também quis viajar no tempo como nos filmes de ficção científica, atravessar portais e chegar a outras dimensões, explorar vastidões de um território desconhecido que era o sertão. Descobri, porém, esse sertão inamistoso. Terra vermelha de ventos arredios ao dobrar a esquina numa hora em que os espíritos se levantam do chão e andam em par com os vivos. Cemitério a céu aberto.

A vó sempre dizia em tom de profecia: tudo sempre se danifica. E então arqueava as sobrancelhas finas, dois rasgos feitos a lápis de desenho. Como essas paredes nas quais nem bem encostamos, indicado com os dedos como pontas de galhos, e os pedaços de reboco úmido esboroavam, espalhando-se pelo chão. A sensação de que o mundo está condenado era quase sempre o seu vaticínio diante de algo que ia mal, dando as coisas por acabadas antes do tempo. Antecipando o fim, prevenia-se do fracasso.

Sertaneja, a vó era uma bruxa que costumava se referir às coisas que não tinham mais expectativa: estão condenadas. Era um rogo, uma reza ao contrário. Fazia sempre que punha os pés fora do batente de casa. Viveu 96 anos. Falava sozinha. Ontem sonhei com seu vulto recortado contra a parede branca, agora na cidade. Acordei feliz.

 

HenriqueAraújo