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O morto na praia

00:00 | 12/06/2019

O morto da praia talvez não saiba da lua vermelha ou a bagunça de casa ou do torvelinho na esquina da Duque de Caxias. Morreu sem que a visse, ou talvez a tenha visto e por isso mesmo entrou na água no dia anterior e de mansinho foi dando passos seguros. Agarrando-se ao rendado que as ondas produzem, cobriu-se até a altura do peito e depois do pescoço e finalmente da cabeça.

Então, já totalmente submerso, ouvindo da cidade que deixou pra trás somente o rumorejado filtrado, som coalhado na água, andou mais alguns metros.

Até que não restassem mais nem som nem luz nem frio, apenas gesto deliberado. Ou quem sabe tenha sido reflexo tardio de uma tarde na infância.

De repente, o homem, que passara a manhã inteira com os pés enfiados na areia, lembrara de algo. Um amigo da escola. Uma professora. Um rabisco no caderno.

O homem da praia é o corpo esquecido e encontrado hoje pela manhã, ou talvez no ano passado, numa época já remota. Carregavam-no na caixa de metal. Dois homens de cada lado. É preciso quatro vezes mais pessoas para suportar o peso do morto.

Conduziam-no à frente de uma nuvem de curiosos. Lá vai o afogado. O homem que não tornou. O refugiado do tempo, o que entrou e não voltou. O morto agora rotulado como morto.

Sem que também o vissem, o homem ainda em vida havia entrado no edifício San Pedro duas noites atrás, aquele prediozinho carcomido que vai durando a despeito do tempo. Sozinho, levara apenas um colchão e três ou quatro livros. Uma muda de roupa. Um álbum de fotografias desbotadas, como convém a toda memória que se esboroa, boa ou má.

O morto agora homem então armara como que uma estante feita de tijolos num canto do primeiro cômodo que encontrou na construção desabitada, senão por uma família no terceiro andar, mulher e dois filhos menores. Escorado contra a parede, esperou o sono.

No dia seguinte, entregou uma cédula de cinco reais ao vendedor de coco em frente ao edifício. Em goles demorados, secou toda a água. Depois pediu que abrissem a quenga para que lambesse a lama que se forma no mais dentro.

Eram 9 horas quando sentou na areia com as fotos e o livro. Depois disso, sabe-se pouco do afogado, apenas que, num súbito, ergueu-se nas canelas finas e caminhou até a franja d'água, celular e volumes na areia.

Não ficaria para a lua vermelha ou o São João ou a Copa do Mundo das mulheres, desde há muito decidido a ir embora antes do tempo.

Abriu ondas com vagar, paciente e enlevado. A cidade vista pelas costas como os fundos de um palco estelar do qual se despedia.

Não era suicida, como diriam os jornais no dia seguinte. Estava mais para viajante do tempo, gente que se mete nas dobras e nelas encontra razões bastantes para estar.

Henrique Araújo