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Camilo e os votos na Previdência

00:00 | 10/07/2019
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e Jair Bolsonaro articulam a reforma
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e Jair Bolsonaro articulam a reforma

O Palácio do Planalto tem uma queixa dos governadores, em particular os do Nordeste, que formam uma trincheira de esquerda num País que votou majoritariamente à direita no ano passado. Segundo os articuladores do governo Jair Bolsonaro (PSL), os gestores estaduais fazem um discurso nas reuniões internas, a favor da reforma da Previdência, e outro em público, contra a reforma. Segundo eles, os governadores querem ver a reforma aprovada sem se desgastarem com o apoio a ela.

No caso do Ceará, Camilo Santana (PT) tinha feito críticas à proposta original. A maior parte dos problemas que ele apontavam foram retirados do texto pelo relator. Diante do que o petista passou a dar sinais favoráveis à reforma.

Ocorre que Camilo não costuma ser muito enfático sobre o que quer que seja e, no caso da Previdência, foi mais enérgico ao criticar antes que ao defender depois.

No que mais importa, os votos da bancada, todos os parlamentares mais próximos a Camilo sinalizam voto contra. São os casos de PDT e PT. Verdade que há parlamentar cearense anunciando voto contra que poderá ser a favor. O fato é que a linha de frente camilista na Câmara dos Deputados deverá ir contra a reforma.

PT entra com representação contra prática que aperfeiçoou

O PT entrou com representação na Procuradoria Geral da República para que seja investigada a liberação de emendas parlamentares às vésperas da votação da reforma da Previdência. O partido considera que a liberação dos recursos pode configurar compra de votos para aprovar a proposta de emenda à Constituição (PEC). O partido quer que sejam investigados o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e os ministros da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM-RS), e da Economia, Paulo Guedes.

A suspeita do PT faz sentido. Até porque, reza o dito popular, quem disso usa disso cuida. O PT sabe do que está falando porque aperfeiçoou e levou essa prática de liberar emendas como moeda política a patamares nunca antes vistos. Foi método usado nas mais diversas ocasiões. Em meados de 2009, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou a liberar R$ 1 bilhão em emendas. Em oito anos de governo Lula, a liberação de emendas saltou 550%.

Naquela época, o hoje presidente Bolsonaro denunciava a situação. Em 2011, ele concorreu a presidente da Câmara e disse exatamente que a liberação de emendas era usada para comprar votos de parlamentares e corromper a independência da Câmara.

O papel das emendas, dentro da lei e além

Uma coisa é preciso salientar. As emendas não são para o bolso dos parlamentares. São recursos liberados para obras nos municípios que os congressistas representam. São indicadas por eles a partir das demandas dos redutos eleitorais. E aí, importante reforçar, os parlamentares são eleitos para isso mesmo. Para representar quem os elegeu e levar as demandas. Não tem nada de criminoso nisso.

O problema surge quando o governo retém esses recursos e libera conforme a conveniência política. Quando transforma em moeda de barganha, em toma lá, dá cá.

O jogo das hipocrisias

Tem gente que reclama quando comparo as incongruências dos dois lados. Ora, o que há é um grande jogo de hipocrisias. Bolsonaro se vale da prática que criticou. O PT denuncia como criminosa a ferramenta que usou à exaustão.

E, bem, não dá para achar bonito quando Bolsonaro faz e dizer que é um absurdo quando é com o PT. Nem para aplaudir quando parte do PT e condenar quando é com Bolsonaro. Errado é errado e certo é certo. Não quem esperar que essa gradação seja feita conforme o alinhamento político está lendo a coluna errada.