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Bolsonaro foi realista

00:00 | 15/06/2019
Paulo Guedes acha que, com as mudanças, será necessária outra reforma em cinco ou seis anos
Paulo Guedes acha que, com as mudanças, será necessária outra reforma em cinco ou seis anos

Paulo Guedes está contrariado com as mudanças que o relator fez na reforma da Previdência. Muitos dos pontos mais polêmicos ficaram de fora. A proposta perdeu força, mas a aprovação ficou bem mais fácil. Passou a ter apoio, por exemplo, de Camilo Santana (PT). O governador sinalizou que irá articular com a bancada cearense e com outros governadores do Nordeste pela aprovação. Um petista aliado a Ciro Gomes (PDT) é um trunfo importante para o governo na expectativa de aprovar a reforma. É alguém ligado aos dois mais significativos pilares de oposição.

Em resumo, retirar as mudanças na aposentadoria rural e no Benefício de Prestação Continuada (BPC) do texto reduzem muito as resistências. É um recuo justo nos aspectos mais polêmicos. A chance de a reforma passar cresceu muito.

Mesmo assim, o ministro da Economia não gostou. Disse que as mudanças podem "abortar a nova Previdência". Ele afirmou que, caso seja aprovada da forma como o relator propôs, os deputados mostrarão "que não há compromisso com as futuras gerações". Ele fez a ressalta: "Eu não vou criticar, eu estou esclarecendo e vou respeitar a decisão do Congresso". Imaginem se ele fosse criticar.

Guedes ficou chateado com as mudanças. O presidente Jair Bolsonaro (PSL) é mais realista. "Se a gente forçar a barra, pode não aprovar nada". É exatamente isso. O enxugamento feito foi algo para tentar viabilizar a aprovação. E, é bom que se diga, isso ainda não está assegurado. A aprovação ficou mais fácil, mas, se a votação fosse hoje, o governo não teria os votos.

O ministro queria a reforma mais profunda possível. Ele não é político. Bolsonaro, mesmo sem ser a pessoa com mais desenvoltura em articulações parlamentares, sabe que se apegar a determinados pontos podem inviabilizar o todo. Apostará em fazer alguma reforma, mesmo que não seja a sonhada pela equipe econômica.

Verdade, também, que Guedes só está no governo para fazer a reforma da Previdência. Já Bolsonaro, se ainda fosse deputado, votaria contra. Ele nunca foi a favor de reforma. Encaminha a proposta para atender parte de sua base de apoio.

 

Guedes reconhece "bode"

Uma fala curiosa do ministro da Economia foi quando reconheceu que já esperava que os pontos mais discutidos ficassem de fora. "Eu esperava que cortassem o BPC e o Rural".

Ou seja, esses pontos entraram na proposta para concentrarem a polêmica e serem retirados. O que se costuma chamar de "bode na sala". Coloca-se para incomodar. Quando se retira, dá a impressão de que a situação melhorou. Porém, apenas está igual a antes de o bode chegar. Fazer isso é normal. Incomum é se admitir.

Para Guedes, o problema é que não tiraram só o bode. Levaram a capitalização e a desconstitucionalização. Uma seria mudança estrutural no modelo. A outra facilitaria mudanças futuras. Eram parte do coração do projeto de Guedes.

Os estados e a reforma

Os governadores queriam que os estados entrassem na reforma. Do ponto de vista da economia, a situação é muito mais grave que no plano federal. Há estados verdadeiramente quebrados e o Rio de Janeiro é caso paradigmático.

Ocorre que os deputados federais não quiseram esse desgaste. Sem a mudança feita em Brasília, a tarefa ficará para cada Assembleia Legislativa. Cada uma terá de fazer seu projeto, enfrentar o debate. Governadores serão alvos de protestos. Preferiam que a bronca ficasse logo toda para Bolsonaro e o Congresso Nacional.

Não é difícil entender por que os deputados não quiseram essa encrenca.

Érico Firmo