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Os bodes da reforma

05:00 | 28/02/2019

Todo governo que pretende aprovar reformas amplas controversas trata de incluir algumas medidas para chamar mais atenção, atrair as críticas e, com isso, serem objeto de negociação. São excluídas e deixam a imagem de que houve debate. Costuma-se chamar isso de "bode na sala". O bicho cheira mal, faz sujeira, provoca uma confusão danada, incomoda e ninguém olha para outra coisa enquanto ele está lá. Quando o bode é retirado, as coisas não ficam melhores do que estavam antes de ele chegar. Mas, a impressão é de que melhorou. Em toda grande reforma, os governos colocam bodes. Nesta da Previdência, eles são mal-cheirosos e evidentes.

Nenhuma reforma como a da Previdência é aprovada do jeito que chega. Nem é bom que chega assim, pois o Congresso Nacional não é escritório de despachos do Poder Executivo. Não deve ser, pelo menos. O próprio governo não disfarça que espera algumas mudanças. Os bodes não costumam ser tão óbvios.

O próprio presidente Jair Bolsonaro (PSL) sinalizou a expectativa de mudanças. "Não temos a menor dúvida de que o parlamento fará as correções que têm que ser feitas". Ontem, o PSDB disse que não votará a favor da alteração no Benefício de Prestação Continuada (BPC). A medida não tem pé nem cabeça e fica muito claro que foi colocada para ser retirada.

O BPC é pago a idosos e pessoas com deficiência em situação de miséria. No caso dos idosos, para ter direito a um salário mínimo, eles precisarão, pela proposta, chegar aos 70 anos. Até os 69, recerberão R$ 400. Não é nem a metade do salári mínimo.

A recusa do PSDB é simbólica. O partido é a mais reformista das forças políticas com alguma relevância no País. Implantaram reformas com Fernando Henrique Cardoso (PSDB), mas apoiaram a reforma da Previdência mesmo quando apresentada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Apoiaram a que Michel Temer (MDB) tentou realizar, sem sucesso. E apoiarão a de Bolsonaro, isso está claro. Mas, não integralmente. Não neste ponto.

A resistência não é ruim para o governo. É boa. Concentrar a polêmica em torno do BPC ofusca outras discussões. O script está claro. A mudança do BPC será revista. Será o boi de piranha para que outros pontos da reforma sigam adiante. Não deve ser a última mudança. Mas, quanto maior a controvérsia sobre um ponto específico, maiores as chances de os outros serem preservados.

 

Ciro Nogueira, senador
Ciro Nogueira, senador

O SENADOR E O CEARÁ

Alvo de operação da Polícia Federal, o senador piauiense Ciro Nogueira (PP) tem relações próximas com o Ceará. Além de amizades por aqui, é sobrinho do empresário Etevaldo Nogueira, que foi deputado estadual no Ceará pela antiga Arena e pelo PDS e deputado federal pelo PFL entre as décadas de 1970 e 1990.

Ciro é atual presidente do PP. Ele é acusado de ter recebido R$ 43 milhões em pagamentos em troca do apoio à campanha de Dilma Rousseff (PT) em 2014.

A FORÇA SILENCIOSA DO PP

 

O PP é partido sui generis. Ocupou lugar de destaque em todos os recentes escândalos brasileiros: mensalão, Lava Jato e por aí vai. Ao longo de sua história, o membro mais ilustre foi Paulo Maluf. Quem também integrou o partido, até 2015, foi Jair Bolsonaro. Porém, o atual presidente não seguiu a linha do partido, por exemplo, no apoio a Dilma em 2014, alvo da investigação de agora. Nem quando o partido apoiou Lula. Nem quando apoiava Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Porque o PP é isto: sempre apoia os governos. E sempre tem força. Tem a terceira maior bancada da Câmara dos Deputados. Fica atrás apenas de PT e do PSL, partido de Bolsonaro. À frente de MDB, PSDB, DEM, siglas com muito mais grife. Silenciosamente, o PP aglomera os mais diversos interesses.

Teve ministérios estratégicos nos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de Lula, de Dilma. Apesar do apoio, ora investigado, à reeleição de Dilma, o PP votou pelo impeachment da ex-presidente. E aí, no governo Michel Temer (MDB), ganhou este módico espaço: ministérios da Saúde, das Cidades, da Agricultura e ainda a Caixa Econômica Federal. Que tal?

Na eleição passada, o partido flertou com Ciro Gomes, mas acabou apoiando Geraldo Alckmin (PSDB). Flerta com Bolsonaro, mas não tem sinais de ser correspondido.

Érico Firmo