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Opiniao

Editorial: Cultura aparelhada

01:30 | 24/05/2020

A rapidez da passagem da atriz Regina Duarte pela Secretaria da Cultura repete um padrão do governo do presidente Jair Bolsonaro: a "fritura" dos auxiliares que ele quer dispensar. Porém, desta vez a situação ocorreu ainda de maneira mais extravagante, pois Regina surgiu como um trunfo do próprio governo com o objetivo de "pacificar" a classe artística, por ser ela uma referência como atriz.

Depois de um "namoro" e um "noivado" com Bolsonaro, no qual as coisas parecem ter sido minuciosamente acertadas - incluindo uma suposta carta branca para agir na pasta - a secretária ficou pouco mais de dois meses no cargo. Tempo suficiente para ser atingida mortalmente pela artilharia da "ala ideológica" do governo, que fantasia a presença de "comunistas" em qualquer área, cujos administradores não sigam a limitada cartilha usada para combater em uma suposta "guerra cultural".

No entanto, Regina Duarte descontentou gregos e troianos. Não logrou um mínimo de convergência com os artistas, principalmente depois de ter elogiado a ditadura e menosprezado torturas e mortes no período de governo dos militares. Por outro lado, sofreu carga daqueles que deveriam ser seus aliados dentro do governo. Inclusive, o próprio presidente fez questão de demonstrar, publicamente, seu descontentamento com a então secretária.

Regina Duarte não conseguiu nem mesmo formar uma equipe de sua confiança, sendo obrigada a aceitar nomeações de pessoas inaptas para várias áreas, indicadas unicamente pelo critério político. A Secretaria da Cultura - outrora um Ministério - viu-se assim reduzida a mero instrumento ideológico, sujeita a interesses de um grupelho que ganha cada vez mais espaço no governo.

Por fim, para simular uma saída pacífica, Regina aceitou participar de um vídeo em que ela e Bolsonaro simulavam entusiasmo pelo arranjo que a afastou da Secretaria da Cultura, dando-lhe um prêmio de consolação: um cargo na Cinemateca Brasileira, que ainda não se sabe qual seria.

Nessa batida, Bolsonaro vem fazendo tudo o que condenava em seus antecessores da "velha política". O aparelhamento do Estado para a promoção de agrupamentos ideológicos é uma dessas práticas. Antes condenada pelo candidato, tornaram-se norma com Bolsonaro presidente.