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Editorial: Repúdio ao terrorismo fundamentalista

01:30 | 29/12/2019

O ano de 2019 termina de forma melancólica após o ataque terrorista contra a sede da produtora Porta dos Fundos, responsável pelo filme "A primeira tentação de Cristo", que retrata um Jesus homossexual e uma Maria adúltera. A obra, disponível na Netflix, provocou a ira de algumas correntes religiosas, que criticaram o que consideraram ser um desrespeito à fé cristã. Enquanto as reações se davam no campo das opiniões, ainda era possível manter certo grau de civilidade. Entretanto, no momento em que elas partem para atitudes irracionais, colocando em risco a vida das pessoas, rompe-se a barreira do aceitável, na medida em que se ameaça da forma mais covarde a liberdade de expressão e o próprio Estado Democrático de Direito.

O ato de radicalismo foi reivindicado por um grupo de extrema-direita que faz referências ao integralismo, movimento dos anos 1930 de cunho nazifascista. Em vídeo que circula na Internet, membros encapuzados usam o nome de Deus para justificar o ato criminoso. Houve até quem achasse graça da forma como a suposta organização se comunicou, tendo em vista que tentaram imitar o modus operandi de extremistas que se espalham pelo mundo, como o Estado Islâmico.

Contudo, não há motivo para riso. É assustador saber que no Brasil existem pessoas dispostas a usar a religião como álibi para crimes do tipo. Parecem esquecer que o cristianismo sempre pregou o amor ao próximo, a necessidade de se resolver conflitos sem apelar para a violência. Jesus não veio à Terra estimular a guerra entre os povos, muito pelo contrário. Manipular crenças para embasar práticas políticas nefastas é o que há de mais repugnante. Quando o fundamentalismo impera, perde-se a noção da realidade e tudo passa a ser tolerado para calar quem pensa ou age diferente.

O atentado contra o canal humorístico merece o repúdio enfático de toda a sociedade, incluindo autoridades que têm o dever de manter a ordem no País. Causa estranheza, inclusive, o silêncio do presidente Jair Bolsonaro e de seu ministro da Justiça, Sergio Moro, em relação ao caso. Deveriam ser os primeiros a criticar ato de tamanha gravidade. Fica então a cobrança para que o atentado seja imediatamente investigado e a punição seja emblemática. O Brasil não pode correr o risco de enveredar para caminhos tão perigosos. Se a resposta não for à altura, fica difícil enxergar um futuro promissor.