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Editorial: Mercosul é bom para o Brasil

01:30 | 27/10/2019

Existe contradição insanável entre as palavras e os atos do presidente Jair Bolsonaro em boa parte de suas atitudes políticas. Faz pouco tempo, ele insurgiu-se contra o presidente da França, Emmanuel Macron, por este, supostamente, ter desrespeitado a soberania do Brasil. Justamente o que o próprio Bolsonaro vem fazendo com a Argentina, para ficar no caso mais recente, afirmando categoricamente que não se conformará com o resultado das eleições desse país - que se realizarão ainda este mês -, caso o atual presidente, Mauricio Macri, saia derrotado em sua pretensão de se reeleger. Porém, todas as pesquisas dão como certa a vitória de Alberto Fernández, que tem como vice Cristina Kirchner, chapa que Bolsonaro considera de "esquerda". A escalada contra a possível vitória da oposição tem levado o presidente Bolsonaro a sugerir que pode deixar o Mercosul, grupo que reúne os fundadores Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela e outros sete países associados.

Jair Bolsonaro disse que, caso a Argentina venha a atrapalhar um movimento de abertura de mercado do bloco, pode se reunir com o Uruguai e Paraguai para tomar alguma medida, analisando inclusive a suspensão da Argentina do Mercosul. Além disso, o governo brasileiro já avalia as consequências de uma eventual saída do grupo, mas ainda não existe cálculo do impacto que isso causaria. Mas é certo que haveria perdas bilionárias decorrentes do fim das exportações com tarifas diferenciadas aos países do bloco. Além disso, a Confederação Nacional de Indústria avalia que 2,4 milhões de empregos estarão em jogo se o Brasil sair do Mercosul.

Essa é mais uma das contradições de Bolsonaro, que repelia o governo do PT, que considerava "ideológico", para ele mesmo agir dessa forma despudoradamente. Na visão do presidente é a "turma do Foro de São Paulo (espantalho sempre à mão para ser agitado) e da Cristina Kirchner" que colocam em risco o Mercosul.

É de se esperar que o governo brasileiro aja com mais prudência, evitando agressões gratuitas e, independemente de quem seja o eleito na Argentina, mostre-se disposto ao diálogo, para que o desastre de o Brasil sair do Mercosul não se confirme. n