PUBLICIDADE

Editorial: É preciso ler os números de uma tragédia

01:30 | 23/09/2019

É impossível atuar contra a realidade dramática da violência nas estradas federais brasileiras sem conhecimento amplo de sua realidade, o que dá importância maior ao Painel de Consultas Dinâmicas de Acidentes Rodoviários, elaborado pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e divulgado semana passada. Mais do que apenas o registro acumulado de números, é espaço de organização de informações que ajudam a entender o tamanho do problema que representa a permanência de um quadro no qual 5.269 pessoas morrem em um ano.

Os números atualizados reforçam como aspecto mais útil do painel a condição que permite observar em perspectiva, percebendo que o cenário é alarmante. São mais de 756 mil mortos no período de doze anos, resultado de 1,7 milhão de acidentes. Também fazem enxergar melhorias e avanços. Por exemplo, há sete anos consecutivos, já com a estatística de 2018 fechada, o registro de óbitos apresenta uma linha de redução.

O que temos, portanto, é um quadro assustador, que uma sociedade civilizada nunca poderá admitir como normal. No entanto, é preciso atenção para o que é fruto de ações várias realizadas ao longo dos anos, pelo Estado ou em iniciativas cidadãs, para se chegar a uma tendência de redução nos acidentes estabelecida de maneira muito consistente, ponto que precisa ser melhor valorizado. Porque apresenta resultados, em primeiro plano, mas, também, porque uma mudança de orientação governamental pode lhe trazer consequências no futuro.

Princípios novos estabelecidos pelo Estado em tempos recentes e que, certamente, influenciam na construção de um quadro continuado de queda nos números, mesmo que em ritmo distante do desejável, têm sido revisados desde a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República. O melhor controle da velocidade, com normas de redução em áreas urbanas cortadas pelas BRs, ou uma política mais ofensiva de instalação de radares, sempre numa perspectiva de priorização à vida, são medidas atacadas pelo novo governo e é natural que concluamos não projetarem uma perspectiva de melhoria no cenário de acidentes, ferimentos e mortes a serem registradas para os próximos meses e anos.

O aspecto da discussão que parece juntar a todos é o sentimento de que não se pode continuar permitindo que o trânsito siga participando com tanto protagonismo das trágicas estatísticas brasileiras de mortes violentas. Uma boa convivência entre motoristas, motociclistas e pedestres ajuda, desde que o Estado atue com mais firmeza e presença, impondo regras onde elas se fizerem necessárias. Uma política de ausência do poder público no setor, como vozes do governo defendem, não é o melhor caminho a trilhar numa situação em que o registro de acidentes e mortes situa-se muito acima do que se poderia considerar natural e tolerável.