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Democracia: lição ainda não aprendida

01:30 | 12/09/2019

Instituições da República reagiram com determinação à ameaça dirigida à democracia contida na mensagem postada no Twitter, nesta segunda-feira, pelo filho do presidente Jair Bolsonaro, o vereador carioca Carlos Bolsonaro: "Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos". O presidente em exercício, Hamilton Mourão, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), respectivamente, e membros do Supremo Tribunal Federal (STF) foram unânimes na condenação da mensagem provocadora e cerraram fileiras em torno da ordem jurídica constitucional vigente, assegurando o compromisso com a incolumidade do Estado Democrático de Direito.

Apesar das palavras tranquilizadoras de tais autoridades (representativas das mais altas instâncias da República), a Nação não se sentirá segura até saber o que pensa disso o chefe do Estado e do Governo, Jair Bolsonaro. Pois a manifestação perturbadora foi emitida por uma pessoa de sua extrema confiança, que se tem destacado não só por defender diretrizes oficiais e a linha ideológica do Planalto nas redes sociais - no suposto intento de manter a fidelização de apoiadores - mas atuado muitas vezes como aríete contra membros do próprio staff governamental eventualmente não alinhados totalmente com a ortodoxia bolsonarista.

Contudo, só tem embarcado nessa radicalização um público minoritário estimado entre 12% a 30% dos eleitores, decaindo cada vez mais à medida em que as respostas concretas às necessidades do cidadão - emprego, saúde, educação, segurança, moradia e seguridade social - não se confirmem.

Há, na verdade, uma presumida desconfiança dos brasileiros em relação ao compromisso de grande parte de sua classe dirigente com a democracia. Historicamente, no Brasil, a democracia só tem funcionado nos pequenos intervalos (interregnos) entre uma ditadura e outra. Toda vez que as camadas mais altas se sentem incomodadas por governos não totalmente dominados por elas, mandam às favas a democracia e tentam derrubar, ou derrubam, o presidente eleito pelo povo (como em 1954, 1961, 1964). Ou então, dão o autogolpe para permanecer no poder, como em 1937. Os pretextos são os mais variados (combate à "corrupção", ao "comunismo", ou a ambos juntos). Ora, corrupção sempre existirá, em qualquer país e combatê-la é uma rotina. E ser comunista ou liberal é um direito garantido pelo Estado Democrático de Direito, desde que o partido ou o militante siga as regras do jogo democrático. Cabe ao povo - não a qualquer segmento de "iluminados" - decidir qual segmento político e ideológico deve dirigir o País. Infelizmente, uma lição que as elites ainda não aprenderam. Agora, é a extrema-direita que parece não aceitar os limites da democracia. n