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Justiça para as mulheres de Uruburetama

01:30 | 17/07/2019

O afastamento do prefeito de Uruburetama, o médico José Hilson de Paiva (PCdoB), por 90 dias, era o mínimo que a Câmara de Vereadores da cidade poderia fazer, em face da revelação dos seguidos abusos e estupros contra dezenas de mulheres que o procuravam para consultas ginecológicas, crimes comprovados por vídeos gravados por ele mesmo. O mais grave é que havia um acúmulo de denúncias contra o prefeito, que começaram há mais de duas décadas.

Durante esse período, as organizações que deviam tomar providências, a começar pelo próprio partido do médico, passando pelo Conselho Regional de Medicina (Cremec), Câmara de Vereadores, Ministério Público e Poder Judiciário, falharam em proteger as mulheres desse verdadeiro horror que passavam em suas mãos. As investigações pouco avançaram, mulheres foram caladas e recolheram-se ao seus traumas, denúncias foram arquivadas na Justiça.

A influência do político na cidade era tão grande - foi eleito para o atual mandato com 70% dos votos - que até mesmo parte da população ficava contra as denunciantes, que passaram por seguidas humilhações. A repórter Eduarda Talicy escreveu que bastou uma caminhada pelas ruas da cidade, com pouco mais de 20 mil habitantes, para observar que "todos sabiam" do comportamento do prefeito, porém, "a maioria" emendava justificativas para seus crimes.

Uma das vítimas, a comerciante Francisca das Chagas, descreveu a este jornal o tipo de abuso sofrido há 25 anos, quando tinha 22 anos de idade e, por receio, ela guardou o segredo, tendo contado a apenas duas pessoas, segundo disse. Na mesma época, contou ela, duas mulheres da zona rural fizeram denúncias contra o médico, mas teriam sido "apedrejadas" no centro da cidade, o que aumentou o medo que ela sentia. A mãe, de uma adolescente, menor de idade, duvidou da própria filha quando esta disse que havia sofrido abuso no consultório. Hoje ela se penitencia, mas diz que a filha ainda guarda "muita mágoa" dela devido ao ocorrido.

Todos os estudos mostram que as consequências para as mulheres que sofrem abusos são devastadores, nos aspectos físico e mental, uma ferida que carregam por toda a vida. E são milhares de casos que acontecem todos os dias no Brasil, seguindo um enredo parecido. Tomadas pela vergonha e pelo sentimento de culpa, temendo que ninguém acredite nelas, ou por medo do criminoso, muitas deixam de fazer a denúncia. Justamente o que aconteceu em Uruburetama.

Somente quando o assunto tomou proporções nacionais, depois de a notícia ser exibida no programa Fantástico, da Rede Globo, é que a situação começou a mudar e as providências começaram a ser tomadas. O que se espera agora é que a Justiça aja com todo o rigor que a lei permite para não deixar escapar impune um estuprador em série, que levou ruína à vida de dezenas de mulheres.