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Ordenação de homens casados

01:30 | 20/06/2019

A comunidade católica-romana celebra hoje o Dia de Corpus Christi (Corpo de Cristo), destacando o culto às espécies consagradas (pão e vinho) durante à Eucaristia (missa). No Brasil, como em outros países de maioria católica, é dia santo. Só quem pode celebrar a missa é um sacerdote ordenado e celibatário, de acordo com a estrutura eclesial romana. Isso pode mudar: no Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco, para outubro próximo, no Vaticano, existe a proposta de se ordenar homens casados para celebrar a eucaristia em áreas remotas daquela Região. Desse modo, o catolicismo retoma uma tradição de padres casados, antes existente até o século X, e que ainda hoje é mantida em outros ramos do catolicismo e pelas igrejas ortodoxas.

A festa de hoje foi instituída pelo papa Urbano IV no dia 8 de setembro de 1264. Desde então, disseminou-se o culto, sobretudo à hóstia consagrada, que passou a ser colocada num sacrário para ser adorada fora do momento da consagração eucarística. Ganhou autonomia litúrgica. Independentemente disso, em todas as igrejas apostólicas só o presbítero (sacerdote ordenado) pode celebrar a consagração eucarística. No ramo católico-romano, a exigência adicional é que o celebrante tenha feito votos de celibato. Até o primeiro milênio do cristianismo, os padres podiam ser casados (nos três primeiros séculos até os bispos). Depois da separação entre a Igreja de Roma e os quatro outros patriarcados (Pentarquia) originais, a Igreja Latina (ocidental) passou a tornar o celibato uma condição obrigatória para ser padre. Desde sempre isso causou problemas com os demais ramos do cristianismo e, cada vez, mais no próprio âmbito católico.

Desde o Concílio Vaticano II, a abolição do celibato obrigatório é uma cobrança crescente, de ordem pastoral, na Igreja Romana. E é fato que atua como um dos fortes fatores para a redução no número de clérigos. Na Europa, isso é evidente, mas se estende a todas sociedades modernas, inclusive ao Brasil. Nas regiões mais isoladas, a escassez de padres torna a igreja ausente - o que se vê também nas periferias urbanas. Com isso, não é estranhável que o papa Francisco queira iniciar uma experiência de retomada da tradição de padres casados, a partir da ordenação de pais de famílias experimentados: os viri probati (homens provados) escolhidos por suas próprias comunidades, onde já exercem uma liderança espiritual. É o que fazem, há dois milênios, as igrejas orientais.

O Brasil foi escolhido para abrir caminhos a essa volta às fontes originais da estrutura eclesial. E o gratificante é que seja na Amazônia, a região que suscita grandes preocupações no mundo inteiro por estar sob o ataque de uma desastrosa política oficial ambiental, como jamais se testemunhou em qualquer outra época.