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Militares: ofensiva olavista

01:30 | 08/05/2019

O Brasil assiste, perplexo, a um novo clímax na guerra intestina no governo, cujos primórdios se esboçaram nos dias seguintes à posse do novo presidente da República, Jair Bolsonaro, sem um instante sequer de trégua e, agora, tem na alça da mira os militares que tentam manter um clima mínimo de racionalidade administrativa e de contenção das posições extremadas que tensionam os limites institucionais. Na base desta última crise está a opção do chefe do governo de se posicionar ao lado do ideólogo Olavo de Carvalho, no momento em que este acusa os militares de serem um empecilho à realização de um programa radical de direita, com o qual o presidente eleito, segundo ele, teria se comprometido perante os eleitores. Radicado nos Estados Unidos, o escritor é chamado de "guru-astrólogo" por boa parte da intelligentsia nacional e da equipe militar que compõe o governo, ambos temerosos de uma radicalização que ultrapasse as fronteiras constitucionais e atire o País numa aventura incontrolável.

Depois de comparar os militares a excremento e os acusar de não terem sido suficientemente radicais em 1964, Carvalho exige desculpas da caserna por ter "conciliado" com as correntes avessas à ditadura. Certamente, entende que agora a oportunidade não deve ser perdida para expurgar quem não concorde com a visão salvífica que ele vê encarnada em Bolsonaro. Imagine-se a que ponto de decréscimo civilizatório e democrático a Nação chegou, em pleno início do século XXI e há menos de 75 anos da derrota de pensamento semelhante que tomou conta da Alemanha, Itália e Japão e levou aos horrores da II Guerra Mundial.

Levar as Forças Armadas à tal desmoralização e desrespeito nunca foi prática de nenhum governo da República (nem os da esquerda). Não que não se possa fazer nenhuma crítica aos militares num regime democrático. Aliás, eles merecem muitas, mas não por não terem conseguido impedir a sobrevivência política (e física) dos adversários políticos (apesar de muitos destes terem sido mortos durante a ocupação do poder pela farda). A crítica justa é por terem interferido excessivamente e indevidamente no País, desde o golpe inaugural de 1889, derrubando ciclicamente a democracia quando esta queria caminhar com os próprios pés. Isso contribuiu fortemente para o atraso político do Brasil.

A boca torta pelo cachimbo intervencionista voltou à tona com a pressão indevida do próprio general Villas Bôas sobre o STF, recentemente, durante o julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula, e na articulação para levar o atual presidente ao poder. Corrigir o erro e impedir que o descalabro olavista triunfe no País é um dever de todas as instituições comprometidas com o Estado de Direito Democrático.