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Sexta-feira Santa: hediondez sistêmica

02:00 | 19/04/2019

Hoje é Sexta-feira Santa, segundo o calendário gregoriano (compartilhado, de alguma forma, por todos - ou quase todos - ramos do cristianismo ocidental). Os cristãos ortodoxos ainda continuam a seguir o antigo calendário juliano, mantendo os dias suprimidos pela reforma que criou o atual calendário, o gregoriano, inaugurado pelo papa Gregório XIII em 1582. Por conta disso, enquanto para os católicos a Paixão é rememorada hoje, 19 de abril, os ortodoxos só o farão no próximo dia 26. Há ocasiões em que os dois calendários coincidem. E aí a festa da Páscoa da Ressurreição, no domingo seguinte à Sexta-feira da Paixão, duplica a alegria cristã, suplantando, a quatro mãos, a tristeza daqueles dias de agonia simbólica.

A Semana Santa dos católicos, até o Concílio Vaticano II (1962-1965) era muito marcada - e ainda é - pelo dolorismo (ênfase dada ao sofrimento de Jesus). Já para os cristãos ortodoxos e os reformados (protestantes) o foco orientador é no Jesus Ressuscitado: a vitória sobre a morte. Contudo, na visão católica, não se chega à Ressurreição sem passar pela Cruz (despojamento do ego). Cada uma dessas tradições religiosas elabora uma teologia própria para justificar seu insight particular do Cristianismo e, ao fim e ao cabo, terminam por concluir que são duas faces da mesma moeda - o que é um antídoto contra o fundamentalismo cristão.

Este se serve do poder para impor sua própria angulação sectária do cristianismo, apelando para a intolerância em relação a quem não compartilha de sua estreita visão. No passado, usou a espada e a fogueira para isso (ambos os lados da contenda religiosa fizeram isso, diga-se). Hoje, os instrumentos são outros, mas a perversão não deixa de produzir vítimas. No caso do Brasil contemporâneo, o fundamentalismo tenta alcançar o poder de Estado: usa a manipulação da política partidária, em busca de poder, cargos, prestígio e mando, correndo o risco de trombar com o chicote de Cristo em seu lombo, como aconteceu com os mercadores do Templo.

Mas, para quem não incursiona pelo campo da fé religiosa, hoje é, sobretudo, o dia de rememorar a injustiça criminosa contra um inocente, que foi perseguido, preso, torturado e executado por ter trombado com o sistema dominante de sua época e exposto a hipocrisia, a truculência e a injustiça de seus fundamentos. Os "homens de bem" não podiam aceitar isso, e o trucidaram. E continuaram a fazê-lo pelos séculos seguintes contra todos os que confrontaram o sistema de poder vigente. Nos traços dos rostos dos novos "crucificados", sejam as vítimas da fome, da falta de assistência médica, moradia e emprego, atualiza-se a agonia do Calvário.