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Gato dentro do saco

00:00 | 14/07/2019
Procura-se gato macho, cinza, desapatecido. Os donos pagam R$ 1000,00 por recompensa. Foto: Demitri Túlio. 12/7/2019
Procura-se gato macho, cinza, desapatecido. Os donos pagam R$ 1000,00 por recompensa. Foto: Demitri Túlio. 12/7/2019

Na esquina da Torres Câmara com Monsenhor Bruno, a fotografia de um gato dentro do saco me fez frear a caminhada. Vinha me esgueirando do sol das 13 horas e pouco em calçadas de árvores cortadas.

Pensava em mamãe. Perdão se a coloco tanto aqui, mas é que tem andado mais ainda em meus silêncios sozinhos. Provavelmente alguma coisa que escrevo sobre dona Edmar seja literatice, um arranjo para uma crônica meio besta.

Outra parte é o que sinto e vira texto para os domingos. Pois bem, na última segunda-feira, uma sobrinha veio avisar, assustada, de mamãe com uma tesoura grande indo para o banheiro. Instantes antes de quando cheguei à casa dela, na Maraponga.

Como vem mudando de hábitos por causa da memória que está se esvoaçando, imaginei mil precipícios até encontrá-la. E fui com a sobrinha Jasmim e Pedro, filho mais novo, ver o que havia.

A intenção (prepotente de filho) era repreendê-la, ralhar com a invenção de uma tesoura amolada nas mãos. Da premência de fazer uma arte estando sozinha no instante do banheiro e não sabermos de sua vida por trás da porta trancada.

E que coisa é a cabeça de um abestado encurralado entre a apreensão e a necessidade de estar no controle!? Você mirabola ou vai acionando um bocado de besteiras sem nem ter visto ainda o acontecido.

É a mania de morrer na véspera, de ler errado o tempo dos outros. De achar que, agora, chegou o hora dos filhos se transformarem em pais da mãe envelhecendo.

Pois então! Encontramos mamãe banhada, saindo do banheiro e nenhum furacão a devastara. Contrário, parecia haver acabado de chegar de uma caminhada e um banho de cachoeira em Missão Velha. Serenada, anoitecida!

"Cortei meus cabelos! Estava cansada daqueles". E se sentou perto do balcão da cozinha e quis saber da vida do neto Pedro que não via há uns meses.

E estavam bem curtos, tipo Joãozinho. Rente aos dentes do pente que iam e vinha tranquilo, para onde ela queria. Vi, calado, mamãe retornar alguns anos antes dali, senhora dela mesma. A vendedora autônoma de perfumes e cremes hidratantes da Natura, do Boticário.

"Não gostou?". Provocou-me porque notou que eu não tirava os olhos dos cabelos novidade. "Não. Achei bonito, Novinha". Respondi como, às vezes, a chamo para implicar com a idade. "Eu também, Novinho". Frescou comigo.

Mamãe parecia livre de mim naqueles minutos, livre dos seis filhos enchendo o saco perguntando pelo caminhão de comprimidos passados por médicos pouco conversadores (e automáticos). Estava livre até dela mesma na condição de deslembrar.

Os cabelos tinham ousadia, ficaram a cara de uma coragem que fui acostumado conviver. A felicidade de mamãe parecia anistiada naquele início de noite da última segunda.

Às segundas durmo lá. Um ajuste feito entre os seis rebentos para servi-la de companhia. Não é fácil pra ela nem pra nós. Mas depois de vê-la cortar o próprio cabelo, como quis, tive a impressão que foi feliz para sempre naquele banheiro.

E quanto ao gato dentro do saco? Razão da freada enquanto eu fugia do sol na Cidade sem sombras? É um bichano que se perdeu dos parceiros humanos ou se livrou deles. Com certeza era bem paparicado, mas teve um momento de querer fazer as coisas sozinhos e foi por aí.

PROCURA-SE. Gato macho, cinza, olhos amarelos, desapareceu no último dia 12/06/2019 nas proximidades da José Vilar com Barbara de Alencar. RECOMPENSA: R$ 1.000,00. Está pregado o aviso na Torres Câmara com Monsenhor Bruno...