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Um aguardo, uma revelia

09:51 | 30/06/2019

Todas as segundas, compartilho com um psicólogo as angústias de ir existindo. Quando me separei, há vinte anos, andei por algum tempo em um consultório a confessar quase tudo e me cavar o que fosse. Voltei.

No jornal, por anos, fiz algumas terapias, constelações e outros curativos para tentar compreender os desassossegos. A vida é um aguardo ou, talvez, uma revelia.

Não é frescura, até queria que fosse, mas que bicho complicado é não ser cartesiano! Não ser pragmático. Deve também ser ruim amanhecer sempre certinho de tudo.

Alguns amigos e amigas, travados em quadrantes, acho chata a vidinha deles. Aceitam o que dizem que é e vão seguindo o berrante. Ou rezam para Deus mudar as coisas.

Talvez, por isso, repentino, alguns desejem se desfazer do viver. Mas rebentar é uma oportunidade. As borboletas insistem. Põem os ovos, vivem a lagarta, se vestem em asas à prova de ventos traiçoeiros e tornam na rebrota.

Cretinamente, pergunto se a vida do psicólogo é um nirvana. Se por viver mergulhando no inferninho das complicações humanas o fez menos alvo das tocaias da criatura.

Claro, pergunto ciente da idiotice de querer colocar régua no estado consciência do outro. De me convencer que há gente bem "melhor" ou mais fel ainda.

Agora, fico olhando minha mãe. Esforçando-se para ainda conviver enquanto a memória não se vai de vez. Insistindo na mesma pergunta ter certeza de que ainda existe. "Eu vou ficar boa?". Sim, vai, mamãe.

E daqui a pouco pergunta de novo e acha que está com fome porque se esqueceu que acabou de comer. "Não me deixe voltar a ser criança. Tudo de novo, não". Deixo não, mãe. "Nem quero voltar a ser mocinha e encontrar seu pai e me casar". Nem se preocupe.

"Se puder, terei vocês de novo. Mas sem necessidade do pai de vocês. Sem pai, hoje não é assim?". Verdade, mãe.

Mamãe tem ocupado boa parte das sessões. Entra sem pedir licença e se aboleta a meu lado. Irrita-me, me diz coisas lá de longe e fresca com o psicólogo. Mas é ela!

Meu pai também, esse é que me irrita mais. Um Lázaro na encruzilhada. E já perguntei várias vezes ao terapeuta porque aceitamos tanto pai e mãe atravessando o caminho. E a gente repetindo as coisas.

Perdão, caro leitor! Como diz um editor, tenho de escrever sempre crônicas ventinho nos olhos. Sobre leveza ou buscar um São João. Arriscar pular uma fogueira, assar uma doce no espeto, tentar um beijo de milho no namorico da quadrilha...

Deve ser bom ter um paizão feito Bolsonaro. Os filhos centrados, gentis. Preto no branco, firmes, machos, valentes com uma arma no cós. Nada de frescura viada de necessitar de um psicólogo.

Preciso de muitas segunda-feiras para ir me desiludindo. Careço de "uma sabiá que me alelui".

 

Demitri Túlio

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