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A língua não é só para os estrumados

00:00 | 14/04/2019

Que língua é essa que o fortalezense bodeja? Esse cearense do litoral capitalista, de sotaque disparado, fanho, que o estrangeiro e brasileiros de outros lugares pedem para falar despacio ou legendado?

Uma fala apressada, numa datilografia sem olhar para as teclas das letras engolidas.

E esse falar próprio seria um resquício do tupi? Uma permanência desidratada do "restin" que se misturou... E teria feito nascer o "nãn", o "mah", o "hun-hun", o "ichi", no que fomos inventando outra possibilidade para se fazer entender?

Sim, claro, num tempo mais bárbaro ainda do que hoje, venceram os portugueses. Invadiram terreiros, roubaram papagaios, cortaram a língua dos índios e os obrigaram a rezar na língua geral.

Ana Miranda e Tarcísio Matos são desses que me trazem especiarias vivas. Um no clássico e outro na alma das ruas (também erudito, não?). "Um de tudo e sem pedir alimpa" no falar canelau ou na poeira da herança indígena. Será?

Um baião de dois queimando no fundo do barro e uma cunhã correndo, alvoroçada para baixar o fogaréu e plena de expressões.

Para sobreviver sem escola, com a fome e a facção nos "calços", foi outra língua que teve de surgir. Era precisão.

Um encabulamento não falar feito os dicionários e as gramáticas. E daí, também, ser isolado porque se grunhia palavreados e dizeres estranhos de gente tangida do Semiárido para o Mucuripe.

Havia de ter um dialeto parido tanto pra miolo de pote quanto para conversa polida.

Fiquei por um tempo pensando se era sobejo o falar estranho à regra, a errância do português como crime à pátria. Preconceito.

Minha avó Marieta, adjetivada de ignorante, botava a mão da boca para dizer palavra.

Amofinava a fala, pronunciava em tom quase soprado, porque disseram pra ela que aquilo não era língua de gente. Talvez dos indígenas do Maranguape, povo de onde ela tinha saído. Era neta de português com uma cabocla do pé chato.

Diante dos soberbos, tinha medo da oralidade e peleava quando tinha de escrever ou ler - mesmo alfabetizada e escola pouca na vida.

"De fi a pavi" a língua, para quem não recebeu uma capitania e teve usurpado, inclusive, o falar nativo, foi refundada na marra. Na unha do boi barbatão.

Pela lei do rei, só os cabras estrumados, de sangue que prestasse, tinham herdado o dom de falar e escrever "bem". Mas o rei, parece, que ainda vive. Tanta gente sem palavra, sem texto!

Bem reescreveu Ana Miranda que, sem língua, é extinta a narrativa. As cantigas, os comeres, os fazeres...

Ela não era de Fortaleza, mas poderia ser daqui. A hoje defunta dona Maria Raio X, moradora da rua de Todos os Santos, no Centro de Juazeiro do Norte. Fui entrevistá-la.

Era a encarnação de Guimarães Rosa num português falado só dela e daqui. Que ele já havia escrito com todas as pausas, onomatopeias e ligeirezas da língua reinante.

É "dechi jeito e é só o firilo". Pronto.

DemitriTúlio