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Tsunami de idiotas arrasta base de Bolsonaro no Congresso

01:30 | 16/05/2019
Ministro da Educação, Abraham Weintraub, na Câmara dos Deputados
Ministro da Educação, Abraham Weintraub, na Câmara dos Deputados

Não vai ter jeito: Jair Bolsonaro terá que ceder aos milhares de "idiotas úteis" - epíteto que o próprio presidente cunhou - que protestaram ontem em quase 200 cidades brasileiras contra cortes na educação. Mais do que o barulho das ruas, sintoma que confirma a encruzilhada do Planalto foi sabatina ocorrida ontem a tarde com o ministro responsável pela pasta, Abraham Weintraub, na Câmara dos Deputados. No provável dia mais duro da gestão até agora, o que se viu no Congresso foi uma base aliada fragmentada e falha, praticamente restrita ao PSL.

Convocado sob ameaça de responder por crime de responsabilidade, o Weintraub que foi ao parlamento era bem distante daquele que anunciou cortes - e foi essa a palavra usada - em universidades que fizessem "balbúrdia". Antes ameaçador, o ministro de ontem já era sereno e conciliador, explicando pacientemente que não existem cortes (mas "contingenciamentos" de só 3,4%) e que está totalmente aberto a receber reitores para discutir recuos. As falas mais agressivas ficaram restritas a petistas, que passaram longe de roubar a cena do evento.

A pressão sobre o ministro era previsível: trata-se, enfim, da talvez mais polêmica medida do governo até agora. O que surpreendeu foi a ampla adesão de partidos do chamado "Centrão" nos ataques, que não ficaram restritos aos cortes e fustigaram a própria articulação política do governo. "O ministro Onyx (Lorenzoni, ministro-chefe da Casa Civil) está sendo um desarticulador, está só atrapalhando a reforma da Previdência", disse Daniel Coelho (PE), líder do Cidadania (antigo PPS) na Câmara.

Várias outras siglas fundamentais para a sustentação do governo, como PP, PR, PSD, PRB, DEM, Podemos, Pros e Avante tiveram muita gente embarcando nas reclamações. Até mesmo o Novo, aliado incondicional das medidas econômicas, puxou a orelha: "A comunicação do governo e esse viés ideológico que ele tanto critica, mas traz, são coisas que a gente não consegue se alinhar", disse Tiago Mitraud (Novo-MG). Resta saber se Bolsonaro também inclui esse pessoal entre os "idiotas úteis" e "imbecis que não sabem a fórmula da água".

Cearense da gema

Se a origem das críticas surpreendeu, fala de Weintraub na Câmara foi dentro do esperado: urgência financeira do País, responsabilidade do PT pelas mazelas na pasta, ataques a Lula e à Venezuela. Surpresa maior ficou na súbita revelação das raízes cearenses do ministro, que disse ser descendente de João Pinto Mesquita, fundador de Santa Quitéria, da família Aragão do Ipu e do professor Torres de Vasconcelos, o "primeiro professor de Sobral". "Minha raiz cearense é profunda, minha família é de Sobral", disse, antes de desafiar os presentes a tocar um xote melhor que ele.

Weintraub faz Bolsonaro ficar mal

Explicação dada por Weintraub ao "disse me disse" de que Bolsonaro teria ligado para ele e pedido a suspensão dos cortes deixou o presidente em situação delicada. Segundo o ministro, o telefonema de fato ocorreu, acontece que o próprio presidente não havia entendido que não se tratavam de cortes, mas sim de contingenciamentos de Paulo Guedes. "Eu expliquei e ele entendeu". O que é estranho é que Bolsonaro estava ao lado de Weintraub em uma transmissão de dias antes onde ele explicou a exata mesma coisa. Bolsonaro chegou até a comer um dos chocolatinhos que Weintraub usou para explicar o contingenciamento. O que aconteceu, o presidente se distraiu?

Primogênito

Reportagem da revista Veja revelou ontem que o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, comprou 19 imóveis por R$ 9 milhões ao longo de sete anos. Em dia que já vinha com más notícias, a acusação é mais um episódio do cerco que pode se fechar contra Flávio (e, por consequência, contra o governo) nos próximos dias. Bem que Jair previa um tsunami.

Carlos Mazza