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Carro 1.0: você ainda torce o nariz para ele?

01:30 | 13/08/2020

Era fraquinho e andava se arrastando principalmente quando carregado. Velocidade máxima?: 135 km/h. Mas o Uno Mille marcou o início de uma revolução da nossa indústria automobilística. Foi lançado em 1990, quando a Fiat se aproveitou de uma redução de 50% do IPI (para apenas 20%) para carros até 1.000 cm3 de cilindrada, e o primeiro a se habilitar ao incentivo. Não foi tarefa difícil para os engenheiros de Betim pois bastou reduzir a cilindrada do Uno, de 1.050 para 1.000 cm3. A marca italiana ganhou rapidamente o mercado pois as outras fábricas tiveram de fazer verdadeira ginástica para equipar seus compactos com motores de 1.000 cm3, equipados com os 1.3, 1.5 ou 1.6. As potências eram baixas, no entorno de 50 cv e, com exceção do Uno, muito pesados e não concebidos para um motor tão raquítico. Mas o desempenho era medíocre em todos eles.

Em 1993, o governo Itamar Franco eliminou de vez o IPI (caiu de 20% para 0,1%), e surgiu então o chamado carro "popular". Bem chinfrinzinho, desprovido de acessórios, simples e barato. Um incentivo que reduziu substancialmente seu preço de tabela e decisivo num país em que sempre se pagou imposto escorchante pelo automóvel. As vendas foram crescentes, mas o conceito do "popular" foi se desvirtuando, com as fábricas incrementando-os de acessórios, equipamentos, sofisticação e maior potência. Os motores foram evoluindo, recebendo novas tecnologias, turbo, compressor e chegaram a dispor de cerca de 100 cv sob o capô.

Embora previsto para durar até o final de 1996, o incentivo foi eliminado no início de 1995, e o IPI subiu para 7%. Mesmo assim, o segmento do "popular" continuou crescendo e chegou a virar uma aberração, ganhando fatias cada vez maiores do mercado nas duas décadas seguintes. As vendas atingiram seu pico em 2001, com inacreditáveis 70% de todo o mercado brasileiro de automóveis. Com a crise financeira que abalou o Brasil e o mundo, o governo voltou a reduzir o IPI (para zero) em 2008, com o intuito de estimular o crescimento da indústria. As vendas reagiram, e os "populares" voltaram a representar 50% do mercado.

Mas o IPI retornou aos 7% em 2010, e a diferença de preço entre um 1.0 e o 1.3 ou 1.4 já não era tão significativa. O mercado foi percebendo ser mais vantajoso um carro com maior cilindrada, mais potente e ágil, sem consumir necessariamente mais que o 1.0. Em certas situações, o motorista tinha que afundar tanto o pé direito que o "popular" se revelava mais beberrão que os demais. Suas vendas foram declinando, chegaram a apenas 40% e continuariam decrescendo não fosse o plano Inovar Auto, que vigorou de 2013 a 2017, estimulando o aumento da eficiência energética dos modelos nacionais. Coincidiu com uma tendência de redução de cilindrada ("downsizing") adotada por toda a indústria automobilística mundial. A ideia era reduzir consumo e emissões com motores de menor cilindrada, mantendo entretanto o desempenho a partir de tecnologia de ponta. E, assim, acidentalmente, o motor de 1.000 cm3 voltou à berlinda, em geral reduzido de quatro para três cilindros. Dotado, entretanto, de turbina, injeção direta, eixos de comando variáveis e outros recursos mecânicos e eletrônicos. Além disso, equipando carros com transmissão automática, direção assistida, ar-condicionado e outros confortos.

Os motores 1.0 da Volkswagen, por exemplo, chegam a desenvolver hoje 130 cv e, além de compactos, equipam até carros médios como o Golf, o Virtus e até os SUV´s Nivus e T-Cross. Os "ex-populares" estão prestes a dominar novamente o mercado brasileiro, pois sua fatia de participação nas vendas cresceu de 33% em 2016 para 47% no primeiro semestre deste ano.

Depois de sua ascensão pelo preço e queda pelo fraco desempenho, o motor 1.0 voltou à baila pela tendência mundial de menores cilindradas ("downsizing") para redução de consumo e emissões. O raquítico 1.0 de 30 anos atrás acabou se impondo pela tecnologia e ninguém torce mais o nariz para ele.

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