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5% das pessoas com câncer de pulmão não são fumantes

| Dados Nacionais | As razões para o desenvolvimento desse tipo de tumor ainda não foram descobertas. Dados foram divulgados durante o 2º Fórum Temático Oncoguia

19/05/2019 03:45:18
ONCOLOGISTA Mauro Zamboni (c) participou do fórum sobre câncer de pulmão em novembro
ONCOLOGISTA Mauro Zamboni (c) participou do fórum sobre câncer de pulmão em novembro (Foto: Divulgação)

Ela é uma doença silenciosa. Quando apresenta os primeiros sintomas, já está em grau mais avançado, espalhada por outros órgãos e, portanto, mais distante da cura. Em 2018, o câncer de pulmão no Ceará acometeu cerca de 1.140 pessoas, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). A principal causa (95%) está relacionada ao cigarro, em fumantes ativos ou passivos. No entanto, 5% dos pacientes não tiveram contato com a nicotina. Estudos tentam diagnosticar a razão de o câncer surgir nessa parcela da população.

Os dados foram repassados durante 2º Fórum Temático Oncoguia sobre Câncer de Pulmão, em São Paulo, que reuniu, em novembro, profissionais de saúde e pacientes para discutir as formas menos prejudiciais de tratar o câncer de pulmão. Em todos os países do mundo, o cenário da doença é semelhante. "Existe um percentual pequeno, mas que não é desprezível, de pessoas que desenvolvem a doença por alguma alteração molecular ou genética. São marcadores que estão sendo investigados. Existe, sim, uma causa, mas ainda não descobrimos qual é", diz o pneumologista Mauro Zamboni.

No trabalho que desenvolve no Inca há 38 anos, Zamboni defende que, no pulmão, o câncer não é uma doença só. São múltiplas alterações moleculares e, por consequência, as implicações do tratamento. Os níveis de tratamento se aperfeiçoaram de 10 anos para cá e, segundo ele, as medicações têm trazido cada vez menos efeitos colaterais aos pacientes.

O mais recente tratamento, conhecido como imunoterapia, utiliza droga alvo desenvolvida com base em estudos moleculares. São medicamentos individuais, elaborados para cada pessoa, por isso, chamada de medicina personalizada. Ela tem o objetivo de reduzir o máximo possível dos efeitos colaterais do tratamento. "Há 20 anos, ninguém queria saber do pacientes com o câncer de pulmão porque 2/3 deles, quando diagnosticados, já são portadores de doença extensa (com gravidade ou metástase) e que não são candidatos ao tratamento cirúrgico", aponta o pneumologista.

Como o tumor maligno de pulmão é uma doença que não apresenta sintomas nos estágios iniciais, Zambone defende que seja realizada uma busca ativa em toda a população com classificação de risco. "É preciso avaliar, periodicamente, as pessoas do grupo. Não adianta fazer tomografia na população inteira", defende. Em setembro de 2018, segundo o médico, foi divulgado o resultado do diagnóstico precoce do câncer de pulmão na Holanda como fator de impacto direto na sobrevida dos pacientes.

A cura do câncer de pulmão é alcançada por meio de cirurgia e, segundo o epidemiologista Alfredo Scaff, nos estágios iniciais da doença. Hoje, quando a doença está avançada e com metástase, o tratamento é feito com medicação paliativa para ampliar e melhorar a vida dos pacientes. Consultor médico da Fundação Ary Franzio para a Pesquisa e Controle do Câncer (Fundação do Câncer), o médico avalia que em alguns pacientes é possível controlar o tamanho e a atuação do tumor por muitos anos.

"Se você imaginar que 2/3 dos pacientes já têm doença avançada, já está no estágio 4, com sobrevida em cinco anos, somente 1% está vivo. Isso é uma tragédia", lamenta pneumologista Mauro Zamboni. Desse número de pacientes, em menos da metade é possível realizar cirurgias por conta de outras comorbidades, como doenças coronárias graves, enfisema pulmonar grave ou outras doenças graves que impedem o tratamento cirúrgico. "Muitas dessas doenças tem relação direta com o tabagismo", diz.

Os 36 anos que Ana Maria de Castro Moura, 52, tinha deixado de fumar não evitaram que ela desenvolvesse câncer de pulmão. A doença silenciosa se mostrou quando surgiu um mioma no útero, em agosto de 2015. A aposentada carioca fez um raio X pré-operatório, surgiu uma mancha no pulmão, que o médico pensou que fosse tuberculose. Foi pedido uma ressonância e foi constatado um tumor no pulmão. Hoje, à quimio e à radioterapia, ela adicionou o tratamento de imunoterapia - um tipo de tratamento biológico para potencializar o sistema imunológico para que ele possa combater infecções e outras doenças como o câncer.

"Até 10 ou 15 anos atrás, o câncer de colo de útero era de uma causa não tão sabidas assim. Hoje, sabemos que a maioria dos cânceres de útero praticamente podem ser combatidas com ações de prevenção, como a vacina. Em breve, queremos dar essa mesma notícia para o câncer de pulmão, além da prevenção do cigarro", projeta.

* A repórter foi a São Paulo a convite  do 2º Fórum Temático Oncoguia sobre Câncer de Pulmão

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Estimativa

31.270

Novos casos de câncer de pulmão é a estimativa do Inca para o ano de 2018, sendo 18.740 homens e 12.530 mulheres (Inca)

ANGÉLICA FEITOSA