A trama do filme combina homicídeos inconfessáveis, amores trágicos, filhos abandonados, maternidade negada e até parricídio
29/08/2008 15:51
As atrizes Charlize Theron e Kim Basinger brilharam nesta sexta-feira na apresentação do primeiro filme do diretor mexicano Guillermo Arriaga, "The Burning Plain", um drama familiar que entrelaça várias histórias que ocorrem em lugares e tempos e diferentes e acabam por converger para uma mesma trama.
Arriaga é conhecido por roteiros que são obra-primas dessa estrutura narrativa, como "Amores brutos", "21 gramas" e "Babel", dirigidos pelo compatriota Alejandro González Iñárritu.
"Na vida real, as histórias são contadas de forma decomposta, não são lineares. Posso falar do avó e depois do meu filho, misturar passado e presente. O cinema é uma linguagem moderna e, entre suas ferramentas, existe a decomposição do tempo", explicou Arriaga, o único latino que compete na seção oficial do festival, falando na coletiva de imprensa.
Aplaudida depois de sua projeção para a imprensa especializada, a trama do filme combina homicídeos inconfessáveis, amores trágicos, filhos abandonados, maternidade negada e até parricídio, com brechas imensas e cheias de sol da Baixa California e os dias chuvosos e frios de Portland.
A turbulenta infância de Mariana (a novata atriz Jennifer Lawrence) marca a vida de todos os personagens, interpretados pela magnífica sul-africana Charlize Theron, co-produtora do filme, e a ex-ícone sexy Kim Basinger, agora no papel de uma mãe de família desencantada que se apaixona por um mexicano, Nick (Joaquín de Almeida).
Arriaga narra a sua maneira quatro histórias de amor extremo, baseadas nos quatro elementos, água, terra, fogo e ar, que ilustram sentimentos como remorso, culpa e tristeza gerados por um ato desmetido: o assassinato da mãe.
A direção firme de Arriaga claramente contou com o talento inquestionável de Theron e Basinger, que garantem o alto nível do filme.
"É o momento mais feliz de minha vida profissiona e devo isso a um elenco muito bom, que me protegeu e me ajudou", admitiu Arriaga.
"Arriaga não é o roteirista típico que escreve fechado em casa e que, de repente, descobre que quer ser diretor. Ele sempre participou ativamente da realização dos filmes que escreveu", comentou o produtor executivo do filme, Marc Buton.
Sua estréia como diretor depois das desavenças com González Iñárritu, com quem manteve anos de estreita amizade, constitui um desafio para o novo cineasta, que evitou maiores polêmicas.
"Antes de mais nada, Alejandro é um diretor maravilhoso", foram as únicas palavras de Arriaga a respeito do colega com quem rompeu relações há alguns anos.
Apesar do sucesso em Veneza, muitos críticos questionaram se a receita de narrar histórias não-lineares intercaladas terá sempre sucesso no cinema.
"Não inventei isso, sim a vida. As pessoas contam as histórias assim, indo do passado para o presente, da frente para trás, de forma não cronológica. Os jvoens fala do cinema de Tarantino e os velhos do de Altman. William Faulkner já escrevia assim", alegou.
Outro tema recorrente do cineasta-roteirista, presente em todas suas obras, é a morte.
"Sou obcecado com a morte e pela maneira que a perda de alguém influencia a própria identidade. É que a sociedade faz de tudo para evitar a morte", afirmou.
"A tarefa de um escritor ou de um cineasta não é ocultar a morte, e sim tentar dar-lhe vida", acrescentou, explicando assim as razões para o final feliz que deu a seu filme.
AFP